terça-feira, 12 de julho de 2016

O REVISOR E O GOLEIRO

O revisor é como o goleiro, o guardião do último baluarte, aquele que precisa salvar todos os erros e que não pode, ou não deve, falhar. Como o goleiro, o revisor faz inúmeras defesas, algumas extraordinárias. Mas basta uma falha para cair em desgraça.
     A vantagem do goleiro em relação ao revisor é que o jogador tem sua atuação assistida por todos - público no estádio ou na TV. Todos os seus acertos e erros são conhecidos. Já os acertos do revisor só são conhecidos por ele mesmo porque, na maioria dos casos, nem mesmo o autor se dá conta do equívoco que cometeu. Não é ético para o revisor dar publicidade aos erros que conserta. Não é honesto cobrar dos autores e muito menos contar aos chefes. Quando o revisor deixa erros passarem, todos tomam conhecimento: os leitores, em primeiro lugar, os colegas, todo mundo, da mesma forma que é conhecido o frango do goleiro.
   Goleiro e revisor têm em comum o fato de que precisam atuar com extrema atenção e em nenhum momento se desconcentrar. O goleiro costuma, como os outros jogadores, concentrar-se, antes do jogo e durante. A atenção é primordial. Um goleiro que se distrai olhando para a torcida ou para o azul do céu pode tomar gol de bola chutada lá da outra área. Já o revisor precisa manter o foco no texto e não se envolver com algazarras de redação. O revisor precisa de tempo para descobrir qualquer possibilidade de erro, além de acessórios de consulta em papel ou Internet. A correria do baixamento e o número reduzido de revisores dificulta isso. Hoje em dia, não existe muito interesse em valorizar os revisores e não sobrecarregá-los. Muitos chefes acreditam que os eventuais erros em matérias podem ser evitados apenas pelos repórteres e editores. O problema é que o dia a dia e a correria inata da profissão impedem a perfeição. Além disso, é preciso que alguém alheio à confecção do texto o examine. Normalmente, o cérebro de quem escreve tende a não detectar os próprios equívocos. 
 O goleiro precisa apenas conhecer a sua atividade e técnica para não deixar a bola entrar, além de um bom preparo físico e muito treinamento e confiança obtida com os jogos. O revisor precisa de preparo intelectual e dominar a Língua Portuguesa, além de conhecimentos de outros idiomas.

Revisor bom é como o goleiro Rogério Ceni

Maior goleiro do mundo de todos os tempos é craque em impedir gol e em fazê-los

O bom revisor é o que, além de impedir eventuais descuidos e ajudar a preservar o uso correto do idioma e de palavras estrangeiras, quando for o caso, pode contribuir com informações que não foram contempladas no texto, sempre respeitando o repórter e o editor. Como o goleiro que, além de impedir gols, vai além de sua cidadela, cobrando faltas e pênaltis e fazendo gols como Rogério Ceni, o melhor goleiro do mundo de todos os tempos, recordista em gols marcados. Isso sem descuidar da sua função.
Uma diferença entre goleiros e revisores é que os primeiros permanecem valorizados, para o bem do futebol, diferentemente dos segundos; cuja tendência é a extinção, para o mal da Língua Portuguesa e dos textos, nos quais se percebe um grande número de equívocos.

domingo, 10 de julho de 2016

AVOLICES DE JULHO

Outro dia, li no Facebook, na Linha do Tempo da minha amiga Cássia Zanon, mãe da pequena Lina, uma brincadeira sobre um questionário de filhos pequenos. Achei tão legal que decidi fazer o mesmo do meu neto, o Meu Pequeno Chefe, de seis anos. Imaginei que, no terceiro item, ele me interromperia e diria:
- Chega de perguntas, vô!
Mesmo assim, tentei. A cada pergunta minha, ele só me olhava e nada respondia e, então, desisti. Mas, como a missão do Raphael é me surpreender, ele saiu e logo voltou com uma pequena agenda nas mãos. Dentro dela, estavam as respostas que a mãe dele anotou para essas mesmas perguntas:


- Qual é teu nome?
- Raphael Nunes Knaak.
- Quantos anos tens?
- Hum, cinco, ops, acabei de fazer seis (risos)
- Quantos anos tem teu pai?
- Não sei.
- Quantos anos tem a tua mãe?
- Também não sei.
- Qual a tua cor preferida?
- Branco. E amarelo e laranja.
- Qual a tua comida preferida?
- Massa. Adoro massa.
- Quem é teu melhor amigo?
-- Fagundes, Schmidt, Pablo e Bê.
- Qual o teu programa preferido?
- Scooby Doo, Os Detetives do Prédio Azul.
- Qual a tua música preferida?
- Uma que os Alvins "canta".
Qual o teu animal preferido?
- Zebra; macaco e gorila.
Do que você tem medo?
...
Qual o seu lugar favorito para ir?
- O Zoológico
- O que quer ser quando crescer?
Jogador de futebol time verde.
O que a Mamãe mais gosta de fazer?
- Cuidar de mim e da Luísa.
Do que você mais gosta de brincar?
- Com bonecos de super-heróis com meus amigos e jogar videogame.
- O que o Papai mais gosta de fazer?
- Ele gosta mais de jogar videogame.
Mas que tanta pergunta, mãe? Eu gostei. Tem mais?

terça-feira, 5 de julho de 2016

CINCO RECANTOS DA BELA PORTO ALEGRE


RESQUÍCIOS DO TEMPO DOS BONDES ELÉTRICOS

          Milhares de pessoas que passam pelo Largo Glênio Peres nem notam um recanto ali do lado, como um recorte do passado. É uma viela entre o antigo abrigo dos bondes, um lugar bucólico que mostra no chão os trilhos sobre os quais os velhos bondes trafegavam.
          Depois do sistema dos maxabombas, os bondes puxados por mulas, iniciado em 1864,  em 1908 começou o tráfego de bondes elétricos. O nome bonde derivou-se da companhia Bond And Share, da General Eletric, em 1928, para quem passou o controle acionário. Em 8 de março de 1970, o bonde circulou pela última vez. Conforme a Wikipédia, ao longo da história dos bondes elétricos na cidade circularam nada menos de 10 belgas, 89 ingleses e 130 americanos, durante o ano de 1961 foram transportados 89 milhões de passageiros sendo utilizados para isso 103 bondes. Recentemente surgiram ideias de retomarem a utilização dos bondes elétricos, ainda que fosse apenas para incrementar o turismo, mas nada  se concretizou.
O poeta Mario Quintana assim homenageou os bondes:

"Acabaram-se os bondes amarelos...
A frase me saiu em decassílabo, viste?
E o metro clássico já faz adivinhar um
soneto. Ficou neste verso único.
E deixo o bonde depositado em meu
ferro-velho sentimental. Aqui. Parado.
Sonhando.
Quem sabe se um dia..."



UMA GRUTA NO MEIO DO  CENTRO HISTÓRICO

           Outro lugar curioso no Centro Histórico é uma gruta localizada na Rua Vigário José Inácio, entre as ruas Jerônimo Coelho e Riachuelo. No local funcionava o residencial Madre Ana, que foi doado em fevereiro deste ano pelas Irmãs Franciscanas da Penitência e Caridade Cristã para ser utilizado pela  Irmandade da Santa Casa de Misericórdia como abrigo para familiares de pacientes vindos do interior do Estado ou de qualquer outro lugar. Muitas pessoas que passam pelo local não percebem a existência dessa gruta.
 Até maio desse ano, a gruta era frequentada por eventuais pessoas que transitavam pela Rua Vigário José Inácio e descobriam o lugar. A sala da gruta tinha uma grade separando os fiéis da estátua para preservá-los de vandalismo, já que ficava sem vigilância alguma. Vi muitas pessoas se ajoelharem por ali e dividirem com a Santa, em pensamento, as suas angústias...Todos os dias, um casal de missionários promove rezas de terço para as pessoas que procurarem a gruta.



                           APOIO PARA FAMILIARES DE PACIENTES


  A casa de apoio conta com quatro andares e 60 quartos. Abriga familiares de doentes que fazem tratamento na Santa Casa e que não têm condições financeiras para se manterem na Capital. O primeiro  a ocupar a casa foi um familiar de um paciente que veio do Maranhão. Foram abertas, inicialmente, vagas para abrigar 30 pessoas, com planos de oferecimento de mais 30 nos próximos meses. A casa de acolhimento está localizada a aproximadamente quatro quadras da Santa Casa, o que dispensa despesas de locomoção para os familiares dos doentes.
Conforme o site Doutor Coração, a casa é comandada por um conselho provedor
 formado por Alfredo Guilherme Englert, Júlio Flávio Dornelles de Matos, Dom Jaime Spengler, Fernando Lucchese, Germano Mostardeiro Bonow, além de representantes das Irmãs Franciscanas e dos grupos de voluntários que atuam na Instituição, como o Voluntárias pela Vida, em campanha de arrecadação de fundos para auxiliar na manutenção do espaço. Para oferecer moradia, alimentação e dispor de materiais de limpeza e de higiene para os 30 hóspedes, o acolhimento terá uma despesa média mensal de R$ 80. Quem estiver interessado em contribuir financeiramente com a causa, poderá fazê-lo da seguinte forma:

Depósito em conta no  Banco Itaú, agência 5906, conta 17293-6, CNPJ 92.815.000/0001-68 ou carnê de contribuição de R$ 60 por mês, pelo período de um ano.

 


Entrada da gruta
Entrada da Associação Madre Ana
Local de reza para passantes que descobrem a existência da gruta
A ESCADARIA DA RUA JOÃO MANOEL

Projeto original criou belvedere para apreciação do Guaíba 
A duas quadras do Palácio Piratini, uma antiga escadaria liga a parte alta da Rua Duque de Caxias e a parte baixa, na Rua Fernando Machado. Até o início do século XX, existiam diversas ruas para esse acesso. Devido a problemas estruturais, essas vias viraram becos fétidos pelo acúmulo de lixo. Um dos que mais problemas apresentavam eram o que existia no fim da Rua João Manoel. Devido ao forte declive, foi aprovado em 1928 um projeto da Seção de Desenhos da Comissão de Obras Novas determinando escadas e rampas no local, conhecido no século XIX como Ladeira da Formiga. O projeto era do arquiteto Christiano de La Paix Gilbert e a edificação a cargo da construtora de Thedor Wiederpahn. Um terço da obra foi custeado pela família Chaves Barcelos, dona dos imóveis de todo o quarteirão. O restante foi arcado pelos cofres públicos.
   A escadaria apresenta balaustrada na parte alta. Logo na descida, há um amplo patamar com duas escadas laterais para chegar à parte intermediária. Dois bancos chegaram a existir no local com dois conjuntos de luminárias. Era uma espécie de mirante para o Guaíba, quando não havia prédios e o crescimento irregular das árvores. 

Quando ainda dava para ver o Guaíba
Primeiro lance de escadarias
Duas partes de escada antes do mirante
Início da descida da escadaria no fim da Rua João Manoel

   Como em muitas outros recantos da Capital, a escadaria, tombada pelo patrimônio público da prefeitura apresenta-se bastante descuidada com depredações, sujeira, pichações e até mesmo servindo de morada para sem-teto que despejam nela necessidades fisiológicas. Mesmo sendo limpa pelos garis, o estado é lamentável. Além de não ser mais apreciada como um recanto aprazível, também não é utilizada com frequência como passagem da Duque de Caxias para a Fernando Machado ou vice-versa. 




No vão do canto esquerdo, sob a escadaria, fica a saída do túnel, que dá no pátio do arquivo, que ficava na margem do Guaíba
TÚNEL QUE LIGAVA PALÁCIO PIRATINI AO ARQUIVO

Ainda é um mistério para alguns historiadores a existência dos túneis, cujas algumas entradas (e saídas) aparecem no Palácio Piratini e no Arquivo Público. Alguns pesquisadores dizem que a origem remonta muito além da época da Guerra dos Farrapos, quando o então governador da Província usou o caminho secreto saindo do Palácio, passando por baixo de onde hoje é a Assembléia Legislativa e saiu no Arquivo Público, na Rua Riachuelo e então pegando o navio, já que o Guaíba chegava à altura da Rua da Praia. Consta que, ao tomarem Porto Alegre, os farrapos conheceram cinco túneis com saídas para os lados que levavam ao fim da cidade, nos Altos da Santa Casa e Praça do Portão, na atual Fernando Machado e na Riachuelo, que já foi mencionado.

Saída do túnel no canto  esquerdo
Atualmente o túnel está bloqueado

Detalhe da porta do túnel




ESCADARIAS DA TRAVESSA 24 DE MAIO

Situado entre a Avenida Borges de Medeiros e a Avenida André da Rocha, no Centro Histórico da Capital, a Travessa 24 de Maio chama atenção de quem decide subi-la. O detalhe mais interessante é que os degraus são usados como cadernos de poesias. Essa escadaria foi construída em 1942, 28 anos depois da construção do Viaduto Otário Rocha. localizado uma quadra a oeste. O local se chamava Beco da Fonte. Em 2007, houve uma remodelação promovida pela Associação de Amigos da 24 de Maio e adjacências.
A surpreendente modificação, porém, ocorreu entre o final de 2011 e início de 2012, quando foi desenvolvido no local uma intervenção artística chamada Artemosfera, um circuito de arte urbana promovido pela RBS com apoio de Tintas Renner e prefeitura de Porto Alegre, com patrocínio de Chevrolet, Zaffari, Braskem e Tim.
A artista plástica escolhida, Clarissa Motta Nunes, fez um trabalho excepcional. Não apenas restaurou as escadarias como tornou um local um cartão postal da cidade. Durante seu trabalho, Clarissa entrevistou os moradores da travessa que já tinha o nome de 24 de maio, em homenagem à data da Batalha de Tuiuti durante a Guerra do Paraguai. Baseada na célebre escadaria Celeron, que liga o bairro da Lapa ao Convento de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, a artista utilizou 3.300 peças. Nos degraus, deixou poesias e frases ouvidas durante as entrevistas dos moradores do local, colocando ainda poemas de autores famosos como Carlos Drumond de Andrade, Paulo Leminski, Erasmo Carlos, Rita Lee e outros.





  


Referências:
Wikipédia
Blog ArquivoPoa- A Memória de Porto Alegre -  www.arquivopoa.blogspot.com.br




sábado, 2 de julho de 2016

AMIGOMEU E O UBER

Amigomeu, outro dia, quase apanhou do Uber. Pois já lhes conto. Vocês sabem que ele é muito tosco, que, às vezes, não  entende bem as coisas. Quando ouviu falar pela primeira vez sobre esse sistema por ora clandestino de táxi, soube que o passageiro é alvo de muitos mimos e regalias, como aguinha gelada e balas. Algo com que os taxistas convencionais não se importam, principalmente alguns broncos como ele. Disseram que os motoristas modernos,  chamados via computador, são cheios de salameleques como abrir a porta para o cliente, oferecer bombons e outros afagos que você nem imagina. Impressionado, quando foi viajar para Bagé, Amigomeu pediu a uma vizinha da Cidade Baixa que chamasse o Uber pelo celular dela.  Pensou até em tomar um mate no caminho. Quando o carro preto chegou,  ele perguntou quanto custaria uma corrida até a Rodoviária:
- Uns dez reais.
- E quanto me cobras pelas malas?
-  A bagagem em levo de graça.
- Mas bá, tchê, que maravilha! Mas que beleza! Vamos fazer assim. Tu me leva as malas e deixa na lancheria dum amigo meu na rodoviária que eu vou caminhando até a Alberto Bins pra comprar uns foninhos e de lá vou a pé, porque é pertinho.
O motorista do Uber não sabia se o passageiro estava brincando ou era louco. Foi aí que Amigomeu quase apanhou.
I.F. 100%

segunda-feira, 27 de junho de 2016

REFLEXÃO NO PRIMEIRO DIA ÚTIL DA SEMANA

Mentiras e omissões, em alguns casos, são como corpos escondidos no fundo do rio. Às cessa, a verdade vem à tona em três dias, em um mês, um ano,  20 anos. Uma enchente pode depreender o corpo dos  galhos ou rochas ou a estiagem retira o lençol líquido que o cobre apresentando a realidade. Em outros casos, a mentira e a omissão permanecem sepultadas para sempre, perenizando dores e incertezas.

REFLEXÃO NO PRIMEIRO DIA ÚTIL DA SEMANA

Mentiras e omissão, em alguns casos, são como corpos escondidos no fundo do rio. Às vezes, a verdade vem à tona em três dias, em um mês, um ano,  20 anos. Uma enchente pode despreender o corpo dos  galhos ou rochas ou a estiagem retira o lençol líquido que o cobre apresentando a realidade. Em outros casos a mentira e a omissão permanecem sepultadas para sempre, perenizando dores e incertezas.

sábado, 18 de junho de 2016

AVOLICES DE JUNHO

Minha neta Luísa, de 10 anos, e eu nos divertimos muito às vezes. Uma das coisas que gostamos de fazer é inventar piadas. Nem sempre saem lá essas coisas, mas algumas nos fazem rir.  Como a do chinês no supermercado que começou com um mote da Luísa e eu dei uma modificada.


"Vizinho meu, chinês, sempre se esquece de alguma coisa quando vai ao súper. Mesmo quando leve uma lista. Outro dia, quando saía de casa, o filho pequeno dele pediu para que comprasse um produto para pôr no sorvete. Ele prometeu, mas não anotou. Quando já tinha comprado o que precisava e se encaminhava para o caixa, deu-se conta de que havia se esquecido do pedido do filho. Mas quem disse que ele lembrava? A saída foi pedir ajuda a uma funcionária do súper:
- A senhola pode me ajudar e encontlar um ploduto pla botá no solvete que o meu filho pediu?
- Não seria creme? perguntou a funcionária.
- Não.
- Era chocolate?
-Também não.
- Quem sabe, morango?
- Não. Agola me lemblei que o ploduto tem nome palecido com nome do meu filho.
- E como é que ele se chama?
 - Chang Tee Lee. 


domingo, 12 de junho de 2016

REFLEXÃO NESTA MANHÃ DE DOMINGO NO SUL DO PAÍS

                           Lavar a louça com esta temperatura ambiente não é apenas um ato solidário. É um ato heroico.

sábado, 11 de junho de 2016

O DIA MAIS FRIO DO ANO EM TERRAS DO SUL

Tive medo de espiar a rua, na tarde cinza, dolorosamente quieta em que até as sombras das árvores se recolheram. Mesmo do lado de cá da janela, temi que meus olhos congelassem.

domingo, 5 de junho de 2016

AVOLICES EM UM DOMINGO GELADO

Na partida de futebol da vida familiar, o avô segue a regra 3: quando o a mãe (ou o pai) estão em cena, o vô fica sentado no banco, quietinho, assistindo ao espetáculo.
A Mãe do Meu Pequeno Chefe fala para ele:
- Raphael, vai lavar o rosto.
E ele:
- Agora eu vou guardar a bicicleta.
O diálogo segue:
- Não, vai lavar o rosto.
- Primeiro, a bicicleta.
- Eu vou contar até três...
- Conta até dez...
-Um...
Meu Pequeno Chefe, que vai fazer seis anos neste mês, se encaminha para o banheiro principal e volta:
- O banheiro tá ocupado.
Ele vai para o pátio e, quando volta, passando pela cozinha, fala em tom baixo, a caminho de novo para lavar o rosto.
- Eu disse que primeiro era a bicicleta.

Eu não falo nada. Não deixo ele perceber meu riso contido. Só observo.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

QUANDO UM SENADOR É UM ERRO ORTOGRÁFICO

Não tenho como resistir. Esse Jucá é um erro de ortografia. Na verdade, é um juca. Fazer o que ele fez, só um idiota faria. Afastamento da função é pouco. Além de perder o cargo de ministro interino, ele deveria perder também o assento no Senado.

domingo, 15 de maio de 2016

AUDIÊNCIA PÚBLICA XII

Ler ou não ler; eis a questão


Tenho lido e ouvido, principalmente de autores, queixas de que a população já não lê e ocupa suas mentes com mídias mais modernas. Lembro de um intelectual que foi secretário na administração municipal que se queixou dos leitores. Naquela época, quando não havia Facebook, ele havia vendido apenas 48 exemplares três meses após o lançamento de um livro. Como nem os amigos compraram, e ele já tinha boa projeção no meio, suspeito que o problema não estivesse totalmente no público.
        Atualmente, não é muito comum ver pessoas com livros nas ruas. No ônibus, de vez em quando vejo alguém lendo. Mas como saber sobre a leitura que existe nos lares e em outros lugares não públicos?
Foi pensando nisso, que me chamaram atenção dois casos na sexta-feira. No banco, ouvi uma vigilante com cerca de 35 anos comentando sobre um livro que acabara de ler e que ficou emocionada. Destacou que era daqueles livros que se tem muita dificuldade de parar de ler e que, em alguns trechos, não conseguiu evitar que suas lágrimas lhe banhassem as faces.
         Tal descrição me forçou a perguntar de que livro se tratava. A obra se chama "Pontes de Lembranças", psicografado por Eliana Machado Coelho e ditado pelo espírito Schllida,. A vigilante havia comprado o livro em uma casa espírita localizada ao lado do banco em que ela trabalha, próximo à Ponte de Pedra, no Largo dos Açorianos. O Google diz que a obra conta a história de Berlinda e Maria Cândida, duas grandes amigas que, depois de longa separação, reencontram-se e colocam suas vidas em dia, revigorando a amizade que parecia perdida no tempo.


         
                                Anedotário da Rua da Praia

Mais tarde, a segunda referência. Após retirar uma receita para o meu filho Luciano, em uma clínica do Bairro Glória, conversei com o recepcionista da portaria principal sobre uma autorização para fotografar o lugar, com prédios antigos em meio a um bosque e uma colina, especialmente um, que ostenta um sino na fachada. Foi o sino que me lembrou um personagem real de um livro. O porteiro comentou que havia lido o anedotário da Rua da Praia, de Renato Maciel de Sá Júnior. Rimos das pegadinhas que o Odone Grecco aprontava na Porto Alegre antiga, como amarrar um cordão no badalo da Igreja Nossa Senhora da Conceição, no bairro Independência, ao lado da casa dele, estendendo-o até o seu quarto. Na noite escura, ele puxava a cordinha, e fazia o padre e a vizinhança inteira achar que era coisa de alma de outro mundo.

domingo, 8 de maio de 2016

PALHAÇANDO

Hoje de manhã, parado diante do setor de carne, ouvi uma cliente perguntar para uma funcionária do súper:
- Aqui tem coração?
Fiquei alguns segundos com meus neurônios digladiando-se entre si: Falo ou não falo? Venceram os neurônios palhaços, e eu disse à funcionária"
- Com o guisado a 24 reais o quilo, eu acho que aqui eles não têm coração.
A moça continuou séria. Deve ter pensado: "Mais um louco. Eu mereço".

HOMENAGEM NO DIA DAS MÃES

Eu te abençoo, meu filho!
Paulo Mendes


Estás lindo, meu filho, com os cabelos grisalhos, o rosto sulcado de sol e chuva, as mãos sovadas de rédea e enxada. E esses olhos matreiros de ver até no escuro. Era para o fundo de teus olhos que sempre olhava, lembras? Desde que nasceste naquela madrugada fria de agosto, quando a parteira me entregou teu corpinho tão franzino, enrolado nas mantas, eu já sabia, e pensei comigo: “Esse vai domar essas éguas, só vai apear do lombo do cavalo para tomar água”. E cumpriu-se. Não deu outra. Foste sempre meu orgulho, topete empinado, nunca te curvaste para os homens, nunca te humilhaste, por isso permaneceste pobre, mas digno. Sempre te apoiei, lembras, meu filho? E tu dizias: “Nunca serei capacho, jamais abaixarei minha bombacha, porque quanto mais eu abaixá-la, mais minha bunda vai aparecer”. Estás lindo, meu filho, com esse jeito altivo de trabalhador, simples e honesto. Lembro-me que foram lá no nosso bolicho, certo dia, elogiar tua honestidade. E eu disse: “Ser honesto e reto é uma obrigação de todos os homens e mulheres”.

    Não chores, meu filho. Eu te deixei, mas nunca te abandonei, sempre te protejo e ilumino tuas ações e passos. Tu não me ouves, eu sei, mas isso não importa, porque teus trabalhos sempre foram claros, como tua alma. Sim, sei que tens saudades de quando estávamos juntos, quando eras gurizinho, de quando te contava as lendas, te cobria com palas e ponchos velhos e furados. Mas eu sentia que gostavas tanto, que te sentias protegido. Não importa, meu filho, seguirás amado, porque daqui onde estou ainda posso te ajudar, embora não saibas. Lembras daquele dia em que querias cruzar o vau com a enchente? Fui eu que te puxei pelo braço e o fiz voltar. Naquela tarde a correnteza estava muito forte. Eu vivo te salvando, meu filho, pois segues como sempre, intempestivo e descuidado, mas por isso mesmo também fico aqui, de onde estou, te olhando.

     Reze meu filho, reze por mim e por todas as mães. Elas merecem, porque sofrem, dão a vida pelas suas crias que crescem e se vão estrada afora, como dita o destino. Ah, meu filho, Deus me deu a graça de te parir, só você, um único filho, mas para mim foi dádiva. Então agradeço. E tu, sempre no Dia das Mães, ora por mim, fala comigo. Por isso te guio e te espero, meu guri, todos os dias, todos os meses, todos os anos, pacientemente, como fazem as mães gaúchas e todas as outras. Vai, agora cumpra o resto do desígnio que a ti foi destinado. Mas saiba, tua mãezinha está ansiosa para te reencontrar outra vez. Ah, e que linda está minha neta, parece a avó ainda menina, com seus olhos de graça e de luz. Vai, eu te abençoo meu filho adorado, porque um dia seremos todos e unos, só um amor repousado na eternidade...


Este texto está na coluna Campereada do Caderno Rural do Correio do Povo deste domingo 9 de maio. 

Paulo Ricardo Cuha Mendes nasceu em 24 de 12 de 1972 em Cacequi, na região central do Estado e viveu sua infância no município vizinho de Júlio de Castilhos, que muito antigamente se chamava Vila Rica, nome que o autor utiliza para situar seus textos.
Paulo Mendes é editor de Geral do Correio do Povo e atua como colunista do mesmo jornal. É autor dos Livros "Campereadas", "Campereadas 2" e "Um Bardo Desgarrado", este último sobre a obra do escritor Aureliano de Figueiredo Pinto.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

TROCADILHANDO COM O WHATSAPP

Quem me conhece sabe que sou fissurado em trocadilhos. Para mim, não há limites geográficos ou de idioma. Agora, por exemplo, estou pegando como gancho, o gancho que o WhatsApp levou, por 72 horas, aplicado por um juiz de Sergipe e que vale para todo o país. 
Whats up, Doc? (O que que há, velhinho?)
Pensando nisso, eu me lembrei da origem do nome WhatsApp, que nada mais é do que um trocadilho dos norte-americanos. Sei que muita gente conhece, mas há também quem ainda não se tocou. É o seguinte: em inglês há uma expressão, whats up? que na pronúncia dá "whatsap" e significa, em tradução livre, "O que há de novo?" "O que é que há" " O que que há, velhinho? (bordão do Pernalonga, em inglês Whats up, Doc." "Qual é a boa?" Daí, para esse aplicativo de bate papo, juntaram o Whats com o App, que é uma redução de Applicative. E deu WhatsApp. Que tal?

segunda-feira, 18 de abril de 2016

MAIS UMA DICA SOBRE CRIAÇÃO DE TEXTO - EVITE O USO ERRADO DO "MESMO".

Para começar, quero dizer que nada tenho contra o vocábulo "mesmo'. Eu mesmo tenho usado bastante "o mesmo" nos textos, mas nunca no mesmo texto como o fiz agora propositadamente. Quero observar que nem sempre o mesmo está errado. Quando digo que xará é o mesmo nome, está tudo correto. Mas quando escrevo que "o motorista andou três quadras de carro buscando uma vaga de estacionamento para o mesmo", aí é um erro, um desperdício de espaço, mesmo que haja lugar para mais texto.
   Essa história de mesmo pode até fazer algum se atrapalhar como aconteceu com o Amigomeu. Veja em http://migre.me/tnH5b

quinta-feira, 7 de abril de 2016

PARABÉNS A TODOS OS MEUS COLEGAS NO DIA DO JORNALISTA

Neste dia de homenagem aos profissionais que optaram por se transformar no elo entre a notícia e o leitor, quero deixar aqui uma homenagem a todos os colegas de profissão. Lembro-me com saudade e carinho de tanta gente que já subiu para a Redação Celestial como o chargista Ronaldo Wastermann, o impagável Paulo Acosta, o Olyr Zavascki, a inha conterrânea Eunice Jacques, o Remi Baldasso, e neste ano, o Wanderley Soares, meu chefe em duas redações, além de muitos outros. Lembro de tantos outros, com quem convivo e a quem agradeço tanto pela amizade quanto pelo caráter, pelas constantes trocas de ajudas como o grande Nilson Souza, o cerebral Mário Marcos, o incrível Luiz Fernando Aquino, o batalhador e criativo Renato Dornelles, o Eugênio Bortolon, a Thais Bretanha, o Renato Panatieri e o Darci Demétrio, entre  tantos outros que se eu fosse listar aqui só iria parar no fim do ano.

Para comemorar a passagem deste Dia do Jornalista, coloco aqui e no Facebook uma diversão para aqueles que gostam do ofício de brincar e de falar sério utilizando as palavras. Escolhi, aproveitando-me agora da minha função de revisor, dez palavras. Digam-me lá, sem conferir no Google nem perguntar para os universitários, nem consultar as cartas ou os oráculos, qual desses vocábulos está grafado correto.


Estrepolia
Convalescência
Manemolência
Beringela
Enchergar
Suscinto
Capotamento
Borburinho
Cortume




RESPOSTAS:

Só um deles está correto: Manemolência. Mas não me recordo de alguém que tenha escrito ou falado certo. O que tenho visto é o uso de Malemolência. A palavra malemolência tem origem em um certo personagem baiano chamado Mané Mole. Por causa dele, se criou o adjetivo manemolente, que significa cheio de molejo, ginga e malandragem. Mas aí alguém com carisma confundiu o termo com malevolência, que significa maldade, e achou que seguia a mesma linha, criando malemolência. Pedro Bial se encarregou de espalhar o termo em um Big Brother. Tanta gente começou a usar o termo errado que até os dicionários passaram a registrar como válido. Até o Volp, Vocabulário Ortográfico da Lingua Portuguesa apresenta Manemolência e Malemolência como aceitáveis na língua portuguesa. Vá entender.

Os outros termos estão errados: o correto é ESTRIPULIA, CONVALESCENÇA, BERINJELA (derivado do tupi-guarany e por isso com jota), ENXERGAR, SUCINTO, CAPOTAGEM (embora muita gente use capotamento), BURBURINHO e CURTUME (de curtir e não de cortar).


   Foi naquela estripulia que acabou acontecendo a capotagem. Ainda 
no hospital, em convalescença, tomando sopa de berinjela, fez um relato sucinto do que conseguia enxergar; pela janela: o outro motorista caminhava, com manemolência, em meio ao burburinho, na saída do curtume.



sábado, 2 de abril de 2016

O ASSASSINATO DA ÁRVORE

Acordo com o som estridente e intermitente de uma motosserra. Parece aquele ruído do antigo motorzinho de um dentista de mau humor, insensível, que desiste de salvar um dente sadio,  preferindo arrancá-lo pela raiz.
      Levanto e percebo que estão cortando a arvore na divisa com o meu terreno nos fundos do pátio. O temporal de 29 de janeiro quebrou um galho da árvore e o deitou sobre o telhado da minha garagem. Hoje cortaram a árvore por completo a pedido do proprietário e dos inquilinos. Eu só queria que tivessem tirado o grande galho quebrado. 
      Os donos do local alegaram que o vegetal os incomodava e que suas raízes ameaçavam derrubar o muro. É muito mais fácil destruir uma árvore do que reerguer um muro.
     Agora olho aquele vazio com tristeza. É só um vazio. Sem aquela beleza verde, sem a sombra, sem os pássaros, sem mais nada. Mas enfim, a árvore não era minha,não estava no meu terreno.
     Senti no ar um clima de tristeza. Foi como se ouvisse um lamento ou sentisse pingos de lágrimas do céu. Com certeza, eram do choro da alma de quem plantou aquela árvore. Que Deus a console. Amém.


Vendaval de 29 de abrir arrancou pedaço da árvore do vizinho
Cortaram a árvore privando-me da sombra e do canto dos pássaros

domingo, 27 de março de 2016

TESTE SOBRE A CURIOSIDADE ALHEIA

Sou curioso pra caramba e gosto de saber o quanto os outros também são. Por isso, levei uma sacolinha de loja de shopping e entrei com ela para o emprego. Fiquei pensando quem seria a primeira pessoa a perguntar o que eu tinha comprado.
Nem bem entrei na sala e um colega perguntou?
- Isso e presente pra mim? E eu respondi;
- E um restaurador de energia. Um produto com nome inglês. Um pequeno tríplex do tamanho de três caixinhas de CDs acopladas. O material não é muito rígido; todo ele feito de bread, com discos de horsemeat agregados que dão consistência e poderio energético. O produto normalmente é utilizado por um usuário apenas e não permite reciclagem. Vem sem manual porque é de facílima montagem.



Ele não adivinhou o que
era..você sabe o que era?











Resposta: Um sandwich


DICAS DE REDAÇÃO

No momento em que está criando, um escritor não pode se preocupar exageradamente com as regras gramaticais e ortográficas. Isso pode soar estranho partindo de um revisor. Calma. Esse conselho se deve ao fato de que essa preocupação com correção da forma pode prejudicar o foco no tema e na criatividade do conteúdo do texto. Mas, concluída a redação, é imprescindível a releitura com atenção e a eventual correção. Melhor ainda se a revisão for feita por uma outra pessoa, com conhecimentos totais sobre a língua portuguesa e experiência de vida. Um texto não é um pão que não se mexe depois que entra no forno.