domingo, 7 de abril de 2013

CARLOS NOBRE, UM HUMORISTA GAÚCHO INESQUECÍVEL

Fábio Silveira e Carlos Nobre no Campeonato em Três Tempos
 Hoje é um dia importante na história do humorismo do Rio Grande do Sul. No dia 7 de abril de 1929, nascia em Guaíba, José Evaristo Villalobos Junior, que ficou conhecido como Carlos Nobre. É graças a ele que até hoje os leitores de Zero Hora costumam começar pela penúltima página. Era ali, que Carlos Nobre desfilava seu criativo repertório de piadas engraçadíssimas e também cáusticas, cumprindo o rito da frase latina Ridendo Castigat Morus (é rindo que se critica os costumes). Além da ZH, Carlos Nobre trabalhou na Folha da Tarde, da Companhia Jornalística Caldas Junior, que fechou em 1984.
     Carlos Nobre começou como cantor no rádio nos anos 50. Era considerado um intérprete de grande talento. Foi, porém, em 1954 que ele deslanchou como personalidade artística ao ingressar na Rádio Gaúcha. Sobre essa parte, Vidacuriosa pega carona na competência do meu amigo professor Luiz Ferraretto, o maior conhecedor da história do Rádio do Rio Grande Sul.
    “No início de carreira, dentro do Jogo Bruto, o programa escrito por Luiz Gualdi, explorava trejeitos de voz e fazia às vezes do torcedor, conforme os estereótipos atribuídos a cada clube. Na mesma linha, inspirado no programa Miss Campeonato da Rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro, Carlos Nobre iria criar, na Gaúcha, uma atração para as noites de terça-feira a partir dos jogos disputados pelos principais times do Rio Grande do Sul no final de semana anterior. Trata-se do Campeonato em Três Tempos, que surgiu em 1958, tornando-se, rapidamente, uma das principais atrações da PRC-2.
Simulando um flerte constante e recorrendo a bordões de fácil assimilação popular, as caricaturas radiofônicas desenvolvidas por Carlos Nobre para cada um dos clubes que disputavam, ao longo de todo o certame, as atenções da Miss Copa, interpretada por Leonor de Souza e personagem central do Campeonato, acompanhada de um grande elenco. Havia o Greminho, papel que o autor escolhe para si, e o Colorado, de Fábio Silveira, os dois mais fortes pretendentes a conseguir chegar ao casamento, na sátira acompanhando a realidade futebolística.
Apenas o Zequinha, na voz de Eleu Salvador e, depois, de José Fontes, por sua origem bendita, do Esporte Clube São José, procurava resistir às investidas da Miss Copa, repetindo: “Afasta-te, pecadora”. Na composição dos tipos, o produtor e o elenco exploram características estereotipadas de cada clube ou da sua cidade de origem: Walter Ferreira vive o gringo do Flamengo, de Caxias do Sul; Ismael Fabião, o algo afetado Doutor Pelotas, representante do Esporte Clube Pelotas; Pepê Hornes faz o cheio de referências militares – “Um-dois, um-dois, um-dois! Companhia alto! Sentido! Descansar” – representante do Grêmio Atlético Farroupilha (o antigo 9º Regimento de Infantaria), também de Pelotas; Gerson Luiz era o índio Botocudão, do Clube Esportivo Aimoré, de São Leopoldo; e Dimas Costa, o gauchão grosso do Guarany Futebol Clube, de Bagé. Na época, as sátiras nem sempre são bem-compreendidas.
O Doutor Pelotas, por exemplo, gerou protestos de lideranças políticas e até religiosas do município da Zona Sul do Estado. Carlos Nobre transformou, então, as críticas em mais um diálogo jocoso entre os personagens de Leonor de Souza e Ismael Fabião, como o próprio Nobre explicou:
– O pessoal interpretou de uma maneira errônea, errada. Mas então eu, para maneirar a coisa, resolvi fazer o tipo másculo do Doutor Pelotas num certo Campeonato em Três Tempos. Ele foi com a Leonor, contracenando sempre, e a Leonor: “Mas, Doutor Pelotas, o que é isso?”. [com voz grossa e gritando muito] “Não tem conversa, não! Não tem conversa! Agora vai ser assim”. E o diálogo foi se processando. No fim, houve uma pausa. E a Leonor respirou: “Como é, Doutor Pelotas, mas o que houve?” E ele olhou e falou assim: [com voz em falsete] “Ah, cansei!”.
    A própria estrutura de divulgação e promoção do humorístico seguia também o desenrolar do Campeonato Estadual de Futebol. Havia farta publicidade no início do certame e, no término, o casamento do vencedor com a Miss Copa motivava a realização de um programa especial, geralmente apresentado em algum cinema da cidade.
Assim, em dezembro de 1961, para comemorar o título que acabava com uma hegemonia de cinco anos do Grêmio no futebol gaúcho, ao Cinema Castelo, além do elenco do Campeonato em Três Tempos, compareceram torcidas organizadas, jogadores e o presidente do Sport Club Internacional.”
   O programa alcançava a impressionante marca de 96% de audiência. Carlos Nobre também escreveu em jornais: teve a coluna Muro das Lamentações, no jornal A Hora, com ilustrações do fabuloso Paulo Sampaio, o Sampaulo. Em 1962, passou a escrever para a Última Hora e, em 1964, para a Zero Hora. O humorista trabalhou no centro do país, mas por apenas quatro meses. Na TV Excelsior de São Paulo, atuou em Humor 62, dirigido por Procópio Ferreira. Na Excelsior do Rio, brilhou no programa Times Square. Os amigos e parentes de Carlos Nobre contam que foi a saudade de Porto Alegre que o fez vir embora. Consta que ele teria vindo um dia de avião para a capital gaúcha apenas para comprar churrasco e voltando para saborear seu prato preferido no Rio.
    Carlos Nobre publicou dois livros (Nobre do Princípio ao Fim e Nobre e Outras), ganhou o título de cidadão emérito de Porto Alegre em 1982 e foi tema da escola de samba Império da Zona Norte, em 1988. Morreu em 16 de dezembro de 1985. Carlos Nobre deixou dois filhos, que seguiram a carreira de jornalistas: José Evaristo Villalobos Neto, o Nobrinho, e Marco Antônio Villalobos, o Marquinhos.

Algumas frases do humorista

• Lamentável a polícia. Acredita que a imprensa tem este nome justamente para ser imprensada- ZH – 1966.
• Depois do salário mínimo e do salário-família, está na hora de o governo inventar o salário verdade – ZH – 1978.
• Já notaram. Atualmente o prato típico do brasileiro é o prato vazio- ZH –1981.
• O ministro da fazenda diz que não há desemprego no Brasil (....) numa dessas vai acabar dizendo, também, que o povo não tem fome no Nordeste. Tem é falta de apetite. – ZH – 1981.
• Emprego no Brasil anda tão difícil de se arranjar que já tem empresa exigindo fiador por candidato - ZH – 1981.
• O verdadeiro milagre brasileiro tá acontecendo é agora, com a gente conseguindo sobreviver no meio deste arrocho desgraçado que tem por aí. –ZH – 1982.
• O negócio não é rezar para que as coisas melhorem no Brasil. O negócio é a gente rezar para que as coisas piorem cada vez menos. ZH –1982.
• Tendo eleição, me agrada até urna funerária - ZH - 1983.
• Nunca concordei que houvesse no Brasil uma maioria silenciosa. Para mim o que houve foi uma maioria silenciada.-
• Os tempos andam tão difíceis que até pra gente ser pessimista tá ruim.
• Mulher é o homem passado a limpo – ZH – 1983.
• Antes do pecado original, Adão era só decorativo – ZH – 1982.
• Deus é bom sim. Ele está é mal cercado.
• Na primavera os botões da roupa do poeta Mario Quintana desabrocham. ZH –1984.
•Nas agências bancárias que tem no aeroporto Salgado Filho aceitam cheques voadores” (ZH, 2/04/1985)
•Não maldiga os passarinhos. Saia de baixo, pô”.
•O cara chato não tem tédio”.
•No Chile, as baionetas caladas são as que falam mais alto”
•Não confunda força da opinião pública com opinião da Força Pública”.
•Nunca pergunte a um antiquário o que há de novo”.
•A posição de goleiro é tão arriscada que, depois do trapezista, o goleiro é o único que trabalha com rede”.
 •Quem ama o feio é porque bonito não lhe aparece”.

Fontes: sites Recanto das Letras (recanto das letras.com.br )
Museu Municipal de Guaíba (
www.carlosnobre.com.br).
Caros Ouvintes, de Luiz Ferraretto (http://www.carosouvintes.org.br)

Um comentário:

Anônimo disse...

Adorei o artigo e gostaria de obter o poema "Carta de adeus à um amor impossível" de Pepê Hornes, multimidia, produtor, ator de radionovela da rádio Gaúcha, que morou em 69 na Vila Cefer, mas que não tive maior intimidade, só o cumprimentando como vizinho, mas sempre o admirando sem chegar a falar-lhe. Tenho procurado, mas não a consegui jamais. Já o Carlos Nobre, quando trabalhava num barzinho da Rua Santo Antonio com a Oswaldo Aranha, via-o passar de sua casa para o trabalho diariamente em caminho para pegar o bonde ara o centro da cidade. Lia odos os dias sua coluna no jornal. Adoraria ler mais sobre o rádio sobre a minha musa, Elis Regina, pois ia ao Programa Maurício Sobrinho, domingos, no Cine Teatro Castelo, na Azenha. Ah Saudades daquele tempo que parece ter ficado noutras vidas passadas... Agradecido pela maravilha que são as relembranças, que por vezes, parecem alucinações e sonhos inventados por uma mente que viveu mentiras. E se não houvessem estas memórias não teríamos com quem repartir estas verdades boas de nossa história íntima, que muitos teimam em achar que são histórias irreais!
Muito Agradecido! Amém!