Acrescentado em 9/9/2012
Quem gosta de ler e fazer poesias tem, em vários municípios do Estado, a chance de ver suas obras expostas para um grande público: os passageiros de ônibus. Entre as cidades que contam com esse veículo, estão Porto Alegre, que também expõe no trem metropolitano, e Gravataí. Este último município entregou, na semana passada, os certificados aos vencedores da 9ª edição do Concurso Poema no Ônibus. As obras já foram afixadas nos vidros dos coletivos que integram a rota municipal. Realizado pela Fundação Municipal de Arte e Cultura (Fundarc) em conjunto com a empresa de ônibus Sogil, o concurso contou com 173 obras inscritas, das quais 16 foram escolhidas.
Os poemas foram avaliados por uma comissão formada pelo doutor em letras Marlon de Almeida, o professor e escritor Caio Ritter e o editor e escritor Christian Davi. Realizada na Praça Borges de Medeiros, no Centro de Gravataí, a cerimônia contou contou com a presença de três autores que participam do evento, de representantes da Sogil, e de outras autoridades, entre elas o prefeito Acimar Silva.
Natureza Viva
Da árvore, admiro as raízes fincadas na terra fértil.
Quero ser forte como o caule que suporta adversidades.
Venero os galhos que acolhem ninhos.
Invejo a sombra confortável
e os frutos que guardam a semente.
Quando chega o outono,
saúdo as folhas que enfeitam o chão,
húmus vegetal, começo de árvore em outra estação.
Solange Firmino de Souza
Num dia lotado
Quero um ônibus bonito
De itinerário infinito
E verso pra todo lado.
Teresa Azambuya
Roque Aloisio Weschenfelder
Poemas e ilustrações foram publicados originalmente no site www.gravatai.rs.gov.br
Quem gosta de ler e fazer poesias tem, em vários municípios do Estado, a chance de ver suas obras expostas para um grande público: os passageiros de ônibus. Entre as cidades que contam com esse veículo, estão Porto Alegre, que também expõe no trem metropolitano, e Gravataí. Este último município entregou, na semana passada, os certificados aos vencedores da 9ª edição do Concurso Poema no Ônibus. As obras já foram afixadas nos vidros dos coletivos que integram a rota municipal. Realizado pela Fundação Municipal de Arte e Cultura (Fundarc) em conjunto com a empresa de ônibus Sogil, o concurso contou com 173 obras inscritas, das quais 16 foram escolhidas.
Os poemas foram avaliados por uma comissão formada pelo doutor em letras Marlon de Almeida, o professor e escritor Caio Ritter e o editor e escritor Christian Davi. Realizada na Praça Borges de Medeiros, no Centro de Gravataí, a cerimônia contou contou com a presença de três autores que participam do evento, de representantes da Sogil, e de outras autoridades, entre elas o prefeito Acimar Silva.
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Prefeito Acimar com Teresa /Foto: Bruna de Bem - Secom/PMG |
A professora de língua portuguesa e literatura Teresa Azambuya, 29 anos, foi a única representante de Gravataí vencedora do concurso. Ela já foi premiada em outras duas edições, além de ter recebido prêmios em Porto Alegre e ganhado concursos estudantis.Teresa escreve desde 2003, possui um livro de poesias publicado e participou de três obras com contos coletivos. O Poemas no Ônibus será o tema de sua pós-graduação.
OS POEMAS
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Ilustração: Shelly Tenjou - Secom/PMG |
Bola Fora
Dominava a redonda
Com maestria.
Chutava, driblava, corria,
Era um craque.
Falsos amigos, abraços fingidos,
E a carreira, por fim, vazia.
Derrotado pelo crack.
Com maestria.
Chutava, driblava, corria,
Era um craque.
Falsos amigos, abraços fingidos,
E a carreira, por fim, vazia.
Derrotado pelo crack.
Carlos Bruni Fernandes
Noite doentia
No copo transparente
onde derrete o gelo da poesia
surge o líquido poema que alucina
a mente embriagada do poeta!
A mesa que sustenta o copo,
ampara as mãos de calejadas rimas,
voam no papel soluços versos
na dança entorpecida da grafia!
No bar o silêncio anuncia
o amanhecer de um estranho dia,
já não há mesa, nem copo, nem poesia,
só escombros de uma noite doentia!
Eugênio Carlos da Luz Backes
Obstação
Tu estavas desesperada,
Só, na fila do corredor.
Sem querer quase nada,
Te ofereci o meu amor.
Esse amor virou loucura,
Enquanto a viagem durou.
No fim veio a desventura:
Tu – ainda só – continuou.
Hoje estás arrependida,
Na fila e só, crias bolor.
É assim mesmo querida,
Já embarcou outro amor.
Não tranque a fila da vida,
Dá um passinho por favor.
Só, na fila do corredor.
Sem querer quase nada,
Te ofereci o meu amor.
Esse amor virou loucura,
Enquanto a viagem durou.
No fim veio a desventura:
Tu – ainda só – continuou.
Hoje estás arrependida,
Na fila e só, crias bolor.
É assim mesmo querida,
Já embarcou outro amor.
Não tranque a fila da vida,
Dá um passinho por favor.
Juarez Cesar Fontana Miranda
Ilustração: Shelly Tenjou - Secom/PMG |
Descortínios
A cortina esconde a tarde,
o sol se põe em tristeza,
abraçam seus raios a colina,
mas não vislumbro o rubor do ocaso.
A cortina oculta o mundo,
a via láctea viaja no espaço,
pilota a lua a nave,
mas não vislumbra a luz das estrelas.
A cortina esconde você,
as roupas se espalham no quarto,
dançam fantasmas no escuro,
mas não vislumbro a cinza das horas.
Roque Aloisio Weschenfelder
o sol se põe em tristeza,
abraçam seus raios a colina,
mas não vislumbro o rubor do ocaso.
A cortina oculta o mundo,
a via láctea viaja no espaço,
pilota a lua a nave,
mas não vislumbra a luz das estrelas.
A cortina esconde você,
as roupas se espalham no quarto,
dançam fantasmas no escuro,
mas não vislumbro a cinza das horas.
Roque Aloisio Weschenfelder
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Ilustração: Shelly Tenjou - Secom/PMG |
Cadeira de balanço
Anos depois, retorno à casa em pleno outono...
Pelo muro que esconde a construção ao lado,
escapa a dúbia luz de um luar magoado
e ilumina o ambiente em meio ao abandono...
Tentado, abro o portão. O gesto há muito adiado
verdece as minhas mãos de musgo e opõe-se ao sono
de um gatarrão que foge inquieto. Então espiono,
na varanda em silêncio, objetos do passado.
Num canto, entregue ao tempo, um móvel me detém...
A cadeira, onde outrora, o balançar que o diga,
quanta alegria encheu-me a vida um certo alguém...
A cadeira tremula e a pronto se renova...
Ora o balanço leva uma lembrança antiga...
Ora o balanço traz uma saudade nova...
Reginaldo Costa de Albuquerque
Cochicho
Ela veio caminhando
toda acanhada
querendo me contar as boas novas
Aproximou-se de mim
com as mãos fechadas
diante do rosto
assim, como se trouxesse
só pra me mostrar
ao abrir dos dedos
um vagalume
Rodrigo Domit
Antroposofia
Com fome de estrela
Comi um pedaço do céu
E meu dia não amanheceu
Rosana Banharoli
Viagem
O trem é cobra,
Esgueira-se pela natureza
(verde ou cinza).
O ônibus é linha
Da costura da cidade
(cinza ou verde).
O trem é pássaro:
Leva filhotes no bico.
O ônibus é botão:
Une dois pontos distantes.
Ambos são colo de infância,
Embalando os sonhos:
Uma trégua na vida.
Simone Alves Pedersen
Anos depois, retorno à casa em pleno outono...
Pelo muro que esconde a construção ao lado,
escapa a dúbia luz de um luar magoado
e ilumina o ambiente em meio ao abandono...
Tentado, abro o portão. O gesto há muito adiado
verdece as minhas mãos de musgo e opõe-se ao sono
de um gatarrão que foge inquieto. Então espiono,
na varanda em silêncio, objetos do passado.
Num canto, entregue ao tempo, um móvel me detém...
A cadeira, onde outrora, o balançar que o diga,
quanta alegria encheu-me a vida um certo alguém...
A cadeira tremula e a pronto se renova...
Ora o balanço leva uma lembrança antiga...
Ora o balanço traz uma saudade nova...
Reginaldo Costa de Albuquerque
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Ilustração: Shelly Tenjou - Secom/PMG |
Ela veio caminhando
toda acanhada
querendo me contar as boas novas
Aproximou-se de mim
com as mãos fechadas
diante do rosto
assim, como se trouxesse
só pra me mostrar
ao abrir dos dedos
um vagalume
Rodrigo Domit
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Ilustração: Shelly Tenjou - Secom/PMG |
Com fome de estrela
Comi um pedaço do céu
E meu dia não amanheceu
Rosana Banharoli
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Ilustração: Shelly Tenjou - Secom/PMG |
O trem é cobra,
Esgueira-se pela natureza
(verde ou cinza).
O ônibus é linha
Da costura da cidade
(cinza ou verde).
O trem é pássaro:
Leva filhotes no bico.
O ônibus é botão:
Une dois pontos distantes.
Ambos são colo de infância,
Embalando os sonhos:
Uma trégua na vida.
Simone Alves Pedersen
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Ilustração: Shelly Tenjou - Secom/PMG |
Da árvore, admiro as raízes fincadas na terra fértil.
Quero ser forte como o caule que suporta adversidades.
Venero os galhos que acolhem ninhos.
Invejo a sombra confortável
e os frutos que guardam a semente.
Quando chega o outono,
saúdo as folhas que enfeitam o chão,
húmus vegetal, começo de árvore em outra estação.
Solange Firmino de Souza
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Ilustração: Shelly Tenjou - Secom/PMG |
Risco
Será um risco?
Será rabisco?
Ou só um cisco na minha escrita?
Só sei que o traço
Desse meu passo
Segue tangente ao meu compasso.
Tatiana Alves Soares Caldas
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Ilustração: Shelly Tenjou - Secom/PMG |
Tra(d)ição
As musas entoam seu canto arcano
E, tão ardilosas, aedos inspiram.
Em seu voo cego, num baile insano,
Poderes e feitos heroicos transpiram.
São como Medeia, cruéis e ferozes,
São como Jasão face ao velocino.
Seu canto-memória traz dores atrozes
E a todos enleva, estranho fascínio.
E tecem castigos em teias e tramas
Celebram banquete veneno memória
Buscando o saber das esferas profanas
Que cortam, destecem, mas fazem a História.
As musas entoam seu canto arcano
E, tão ardilosas, aedos inspiram.
Em seu voo cego, num baile insano,
Poderes e feitos heroicos transpiram.
São como Medeia, cruéis e ferozes,
São como Jasão face ao velocino.
Seu canto-memória traz dores atrozes
E a todos enleva, estranho fascínio.
E tecem castigos em teias e tramas
Celebram banquete veneno memória
Buscando o saber das esferas profanas
Que cortam, destecem, mas fazem a História.
Tatiana Alves Soares Caldas
Num dia lotado
Quero um ônibus bonito
De itinerário infinito
E verso pra todo lado.
Teresa Azambuya
Grotesco
pincelei as cores do céu
o tom das flores
a nuvem escura
o vento azul
e o mar ondulado
espuma nas ondas
tão fortes, redondas
que sinto a vertigem
rodopiar em mim
uma louca grita impropérios
e um bêbado dorme na calçada
eles não precisam
pincelar a vida
o tom das flores
a nuvem escura
o vento azul
e o mar ondulado
espuma nas ondas
tão fortes, redondas
que sinto a vertigem
rodopiar em mim
uma louca grita impropérios
e um bêbado dorme na calçada
eles não precisam
pincelar a vida
Roque Aloisio Weschenfelder
Arqueologia
Quando o hoje era infância
construía prédios de papel
Edificações que copiava dos livros de geografia,
as preferidas eram alemãs e japonesas
(nesse tempo
ainda não media o tamanho das guerras)
Cresceu
Até agora não entende
por que o tempo mancha as costas das mãos
como faz com essas antigas casas de cartolina
Sérgio Bernardo
Noite adentro
Os latidos
a buzina, ao longe
o salto alto no andar de cima
o ressonar da criança no quarto contíguo
Um espirro
Duas lembranças
Três portões se fechando
Meia música cantarolada
E meus ouvidos, insones,
Os latidos
a buzina, ao longe
o salto alto no andar de cima
o ressonar da criança no quarto contíguo
Um espirro
Duas lembranças
Três portões se fechando
Meia música cantarolada
E meus ouvidos, insones,
tão cheios de vizinhança...
Teresa Azambuya
Teresa Azambuya
A AUTORA DOS DESENHOS
Shellen L. Pinto nasceu em Porto Alegre, em 1º de julho de 1985. Estudou no Colégio Dom Feliciano, de Gravataí desde a pré-escola até o ensino médio, mas já na infância descobriu que gostava de ilustrar e criar histórias. Atualmente trabalha como desenhista na Secretaria de Comunicação da Prefeitura Municipal de Gravataí e faz faculdade de Produção Multimídia na Faculdade SENAC/RS.