sexta-feira, 20 de setembro de 2013

DESPRETENSIOSAS REFLEXÕES SEMÂNTICAS SOBRE TERMOS GAUDÉRIOS

Já comentei aqui sobre o meu gosto de me debruçar sobre alguma palavra ou expressão para analisar a origem. Hoje, colhi na bateia uma pepita interessante da tradição gaúcha e comecei a raspá-la para mostrar seu verdadeiro brilho. É a palavra "china". Não encare isso como algo acadêmico porque não é. Não fiz longas e extenuantes pesquisas nem cito aqui nenhum pensador ou pesquisador renomado. É apenas uma digressão baseada em leituras aleatórias e em um processo de ligação de significados.
China, termo usado para definir uma mulher gaúcha, já foi bem mais conceituado do que agora. Designava a companheira do gaudério e tinha esse nome porque fazia menção à fisionomia da mulher de então com traços semelhantes às chinesas, quando na verdade eram indicações da herança indígena. Também a tonalidade da fisionomia levava às chinesas mas igualmente às índias brasileiras. A partir da cor de cuia, criava-se o termo morena, derivativo dos mouros, também presente no DNA de muitos portugueses e espanhóis já que os árabes muçulmanos da Mauritânia, no noroeste da África, de tez escura, dominaram a península ibérica por mais de 400 anos, convivendo com esses dois povos.
O termo china era uma referência à forma carinhosa que o gaúcho chamava a sua companheira. Mas o nome foi sofrendo uma mudança a partir da evolução dos próprios gaúchos do pampa, que cresciam economicamente com o produto da agricultura e da pecuária, mais especificamente a charqueada. Igualmente a chegada de outros povos europeus contribuiu para isso. Com isso, tinham condições financeiras para enviar seus filhos para estudos na Europa, mais especificamente na França. 
A partir daí, a preferência para chamar a mulher do gaúcho mais rico, nas fazendas, era a de prenda, termo que tem um significado de presente, regalo ou bibelô. Para alguns, não combinava chamar de china às suas alvas mulheres. O termo foi ficando mais para as mulheres pobres, companheiras de gaúchos igualmente sem posses ou sem eira nem beira. Foi se tornando cada vez mais pejorativo que passou a denominar as mulheres sem virtudes, dentro do conceito do que era isso no entendimento das classes dominantes. Até mesmo os próprios gaúchos acabaram assimilando essa troca de significados. Chinaredo, que antes era somente um conjunto de mulheres, tomou o sentido de bordel. Até mesmo o prato típico conhecido inicialmente por Arroz de China Pobre, passou a se chamar, até nos dias de hoje, Arroz de Puta Pobre. Restou para as mulheres gaúchas o termo Chinoca, que nunca sofreu qualquer discriminação.

Um comentário:

vidacuriosa disse...

Para quem não conhece, arroz de china pobre leva apenas parcos pedaços de linguiça. Já o arroz de carreteiro leva apenas charq
ue.