sábado, 12 de janeiro de 2013

HISTÓRIA DO GAÚCHO GROSSO QUE ESTUDOU BALÊ

Amigo Meu é um cara meio tosco. Mas já foi bem mais tosco do que agora.  Nasceu no meio das macegas, na Região da Campanha, lá no interior de Bagé. Era mais grosso do que dedo destroncado, do que caxumba de elefante. Daí um dia decidiu vir para a Capital e passou a surpreender todo mundo com o seu alto nível de grossura. Perdeu uma namorada por causa disso. Os dois, tímidos, estavam sentados em um banco de praça, sem assunto, quando ela, romântica e poética, tentou um diálogo:
- Tu estás ouvindo que bonito o canto dos passarinhos?
Ele respondeu:
- Também, com o cu atopetado de pitanga, até eu.
 Foi aí que ele achou que tinha de fazer alguma coisa para diminuir a grossura. Um amigo dele sugeriu que fizesse balé. Ele ficou preocupado:
- Nem pensar. Eu assim vou me transformar num maricas.
  O outro argumentou que não havia como isso acontecer porque Amigo Meu era de Bagé e muito grosso mesmo. O máximo que poderia acontecer, com o balé, seria ele se tornar menos tosco, mais educado. Se fosse de uma outra cidade lá por perto até poderia ser que aviadasse.
   E então Amigo Meu se matriculou num curso de balé. Como tinha pressa de diminuir a grossura, estudou com afinco e aproveitou as folgas para treinar o que aprendera.  No primeiro fim de semana, se foi lá para o campo do Ramiro Souto, no Parque Farroupilha. Fez questão de praticar todos os passos de balé que aprendera: demi-pliê, sissone, ecarté e, metido, até tour en l'air. Mas o problema é que antes foi se exibir em um spacatto em pleno Parque da Redenção. Para quem não sabe, esse é aquele movimento em que o sujeito abre as pernas e vai até o chão. Pois Amigomeu, muito tosco, escorregou o pé e se distendeu todo, raspando tudo no areião. Resultado: rasgou a malha e teve gastar quase três bisnagas de Hipogloss.
   Isso não foi o pior. O fim do ano chegou, e Amigomeu foi passar o Natal e o ano-novo com os pais lá no interior de Bagé. Nas conversas, em meio a um chimarrão e outro, diante do fogo do churrasco, Amigomeu contou que estava fazendo balé. Pra quê? O pai dele, outro que era mais grosso que rolha de poço, levantou da mesa, pegou o mango que estava pendurado na parede e sapecou-lhe o lombo pra aprender. Enquanto a mãe chorava, o pai mandava colocar no fogo as malhas e a sapatilhas e nunca mais ninguém falar sobre o assunto. Até o velho morrer, Amigomeu nunca chegou nem perto de uma apresentação de balê. As aulas não foram suficientes para deixá-lo um gentleman, mas bem menos tosco do que era.

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