quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

DESCONSTRUINDO EXPRESSÕES E DITADOS ANTIGOS

* O pior cego é o que não quer ver. Não existe esse negócio de pior cego. O que existe são pessoas com maior ou menor deficiência. Isso de falar pior cego não é politicamente incorreto, é semanticamente errado. O preconceito está na intenção da fala ou da escrita e não exatamente na palavra. Mas há algumas em que não tem como não perceber o tom pejorativo, como cegueta, ou de pena, ceguinho. Na minha opinião, cego e deficiente visual são termos sinônimos e não há por que não serem usados. Posto isto aqui com minha admiração e afeto por Patrícia da Rosa, cega e assessora de políticas públicas para pessoas com deficiência, de Gravataí, minha amiga também no Facebook.

*Passar por baixo de escada dá azar. A expressão surgiu certamente por causa dos pedreiros e pintores que eram descuidados em seu trabalho. Muita gente achou que era azar ser atingido por tinta ou cimento caídos lá de cima. Para evitar isso, criou-se a expressão dizendo que dá azar. Eu não concordo com isso. Não sou supersticioso porque tenho convicção de que ter qualquer tipo de superstição dá um baita de um azar.
 
* A ocasião faz o ladrão. O autor desse dito popular certamente foi um ladrão interessado em racionalizar seu comportamento egoísta e totalmente sem ética. A ocasião apenas facilita o trabalho do ladrão. Não é o distraído o culpado pelos crimes que sofre, mas aquele que está sempre pronto para se apossar do que não é dele. O criador desse adágio tão repetido deve ser o mesmo das expressões “achado não é roubado” ou ‘”dinheiro não tem marca”, usado por quem torce para não descobrir quem perdeu e muito menos as circunstâncias.  A necessidade de tomar o que é do outro, e não a ocasião, é o resultado de aventureiros que se apossam de terras alheias como as dos índios, por exemplo, e que não se preocupam com os reflexos dessa ambição na natureza. É dessa avidez por posse de algo, que resultam as infindáveis guerras, porque o homem é o outro do outro homem. Os mais poderosos é que determinam o que deve ser de quem. Sempre foi assim desde o início, lá nas cavernas, e lamento, mas sempre o será, ainda que o mundo hoje seja, no geral, muito mais humano do que já foi.

* Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. O ditado foi criado para dar esperança. Mas milhões de escravos nasceram, viveram e morreram no cativeiro. Milhares de judeus foram presos, mantidos em campo de concentração e executados. Quanto tempo é durar?

Tanto a raposa vai ao moinho que um dia perde o focinho. No caso, o bicho acaba atingido um dia pela asa do moinho de vento ou por uma armadilha. O adágio foi criado para lembrar que alguém tanto repete um erro que acaba sendo pego e castigado. Ledo engano. Nos tempos de hoje, tanto um ladrão assalta um mercado que um dia o mercado fecha, ou pela falência ou pelo assassinato do dono. 

Nenhum comentário: