quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

SOBRE O SIGNIFICADO DAS PALAVRAS

Em 1968, quando vereadores de Alegrete, terra natal de Mario Quintana, resolveram fazer uma homenagem ao famoso conterrâneo, pediram a ele que criasse um poema para constar na placa. O poeta, que nunca foi de fazer poemas por encomenda, negou-se a atender o pedido e explicou com uma das suas características frases: "Um engano em bronze é um engano eterno". Sem desistir da homenagem, os homenageadores colocaram na placa justamente essa frase. Eu concordo com Quintana e entendo que um erro na Internet, que o poeta não chegou a conhecer, é mais do que um erro eterno, é um erro contaminador e que se dissemina irremediavelmente. Quanto mais prestígio o autor tem, mais efeitos maléficos seu erro causará, porque não há nada que dissemine mais os erros do que aqueles que desfrutam de credibilidade. Disso se aproveitam os "pichadores de Internet", os vândalos que costumam atribuir textos a outras pessoas.
Foi pensando nisso que observei muitos erros que se repetem exatamente por causa da exposição na Internet. Hoje refiro-me a quatro palavras:


Intermitente
Iminente
Bagatela
Ímpia
Manemolente

Tenho lido muita gente usar "intermitente" com sentido errado, dizendo, por exemplo, que a chuva intermitente impedia o personagem de sair de casa. Ora, se a chuva era intermitente, era só aproveitar os momentos em que ela não estava caindo para sair. É que muita gente acha que intermitente é sinônimo de incessante. E não é. Intermitente é interrompido e retomado, como as luzinhas das lâmpadas da árvore de Natal ou dos vaga-lumes.

Iminente é o que está para chegar, e não eminente, mesmo que esteja para chegar o cardeal da igreja católica, que é chamado de Sua Eminência. Eminente é importante, iminente é o que está prestes a acontecer.

Bagatela, significa ninharia, micharia, mas tem gente que escreve essa palavra para se referir a uma importância significativa. É que esquecem de pôr aspas, o que indicaria uma ironia. Por exemplo, um lápis custa uma bagatela, dois reais apenas, um jogador ganha uma "bagatela", 50 mil reais por mês. Eu não tenho certeza da causa de não usarem as aspas, no resto do país, mas me lembro que em uma certa época, nos anos 1990, um diretor de um importante jornal gaúcho decidiu que não se usaria mais aspas em suas edições porque a repetição desse sinal gráfico enfeiaria os textos. Daí que passaram a não usar nem aspas nem itálico em palavras que indicariam ironias, como,no caso bagatela. Outros jornais e, depois, blogs copiaram essa imbecilidade.

Ímpia - Pouca gente sabe o que é ímpia. Como o termo faz parte do hino farroupilha ("...nesta ímpia e injusta guerra") algumas pessoas resolvem escrever o vocábulo sem se dar conta do que ele significa. Uma vez, durante uma reunião de pauta, uma jornalista comentou que ninguém poderia falar mal do jornal. "Afinal, somos uma redação ímpia", querendo ressaltar a honestidade dos jornalistas. Ninguém na sala comentou nada sobre isso. Na verdade, impia significa que não tem dó, não tem piedade.

Manemolente Quem lê assim até acha que está errado de tanto que ouve falarem em malemolente e malemolência. Ouço o termo equivocado com muita frequência. O badalado jornalista Pedro Bial que comanda um programa de grande audiência (ultimamente nem tanta) chamado BBB costuma usar o termo malemolente e malemolência para explicar um comportamento brejeiro dos brasileiros, com malícia e movimentos de corpo. Malemolente não existe. O que existe é manemolente, um adjetivo criado a partir de um personagem baiano chamado Mané Mole. Ser manemolente é ser como Mané Mole com sua ginga e trejeitos. Alguém que não presta muito atenção no significado das palavras, confundiu manemolência com malevolência e passou a falar ou escrever errado. Uns e outros também pouco letrados copiaram e assim certamente algum dicionarista já colocou como sendo palavra válida já que é pronunciada por tanta gente.





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