domingo, 4 de maio de 2014

AVOLICES DE DOMINGO - UMA HISTÓRIA FUTURÍSTICA SOBRE O MEU PEQUENO CHEFE

Corre o ano de 2027. Com 17 anos, meu neto Raphael, a quem eu sempre chamei, desde menininho, de O Meu Pequeno Chefe, está na aula de História Geral da Arte, no meio de seus 438 colegas. A sala é um auditório em forma de teatro de arena. A professora pergunta, pelo microfone instalado em sua lapela, qual a diferença entre a tragédia e a comédia. Cada aluno dispõe de um fone de ouvido e um pequeno microfone. 
 Raphael é o mais rápido em se habilitar para responder. Aperta o aparelhinho que cada um tem, chamado de student own, e logo sua foto aparece no grande painel à esquerda da professora. Em grandes letras, brilha o nome do aluno: Raphael Nunes Knaak. Tudo o que ele disser, aparecerá no painel em portruguês, inglês e chinês. O som de suas palavras também sai no alto-falante e nos fones dos colegas, traduzido simultaneamente para o idioma de quem ouve.
 Confiante, meu neto responde:
- Depende do ponto de vista.
- Explique-nos, por favor, Raphael - pede a professora.
- Vou contar uma historinha antiga. Em 2014, quando eu tinha quatro anos, fui almoçar com a família na casa de um tio. Compareceu um grande grupo de familiares. Fazia muito frio e, no almoço, comemos todos um prato chamado mocotó. É uma iguaria que não existe mais porque, naquele tempo, ainda se matava animais para comer. O prazo era produzido com patas de boi, além de vísceras e outros ingredientes que nem gosto de me lembrar. Acontece que um dos ingredientes estava estragado e isso causou um revertério, um desarranjo intestinal, em todos ao mesmo tempo. Como na residência havia apenas um banheiro, imaginem a confusão e o caos que se instalaram. Moral da história: o que para vocês é uma comédia, para todos os que estávamos lá, foi uma tragédia.
  O que se ouviu foi uma gargalhada geral, em cascata, iniciada por quem entendia português e seguida à medida que os outros escutavam a tradução. Quando o riso, parou, Raphael acrescentou. "Era só para descontrair a aula. Agora vou falar sobre comédia e tragédia."
Com segurança, falou sobre a história grega e mundial, iniciando por Aristófanes, com a comédia, e referindo os da tragédia, como Ésquilo, Sofocles e Eurípides, concluindo com Shakespeare e outros.
    Quando ele acabou sua explanação, o que se ouviu foi uma ovação. Era tão forte o barulho que eu despertei. Acordado, segui ouvindo palmas. No pátio, encontrei o Meu Pequeno Chefe, brincando com o Bolt, batendo palmas.

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