segunda-feira, 22 de agosto de 2011

POESIAS NOS ÔNIBUS DE PORTO ALEGRE E REGIÃO METROPOLITANA

Foram divulgados os resultados da 20ª edição do concurso Poema nos Ônibus e no Trem, organizado pela Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre. Foram inscritos mais de 900 trabalhos, julgados por Alcy Cheuiche, Eduardo Dall’alba, Everton Behenke, Célia Maciel e Maria Tereza Zatti. Os autores terão seus poemas editados em coletânea, que será lançada na Feira do Livro deste ano junto com os premiados da edição de 2010. Mais detalhes em http://www2.portoalegre.rs.gov.br/smc/default.php?p_secao=57   Os 25 poemas escolhidos foram os seguintes:

 Andorinhas
Doidivanas no céu,
as andorinhas
seguem o vento,
sem metas, sem destino,
sem lógica, sem rimas,
no êxtase, apenas,
dos múltiplos desenhos
que traçam no ar,
sem qualquer geometria,
só a absurda poesia
do saber voar
Alberto Lisboa Cohen

   Inês

Agora é tarde,
Inês é morta.
Se fui covarde
Não mais importa,
Inês é morta.
O instante é bambo
Que nem a corda,
Passa, lembrando:
Inês é morta.
Passa o momento,
Fica o agora
E o meu lamento:
Inês é morta.
Aline Corte



Acidente na avenida

O último relincho na carroça,

o carro atravessado na avenida

e o ciclista estirado, sem que eu possa

cobrir seu corpo inerte e já sem vida.

Não mais irá o cavalo para a roça;
a motorista, em pânico e perdida,
revê, talvez, seu carro, que destroça
o ciclista e a carroça envelhecida.
O cavalo e o ciclista vitimados.
Mas muitos motoristas, apressados,
só veem que a avenida está trancada,
alheios à mulher, que sai do carro,
se entrega à dor, às lágrimas e ao barro
e, em choque, diz aos mortos: não foi nada...
André Silva de Castro

  Dona Maria madrugadeira
Ainda estão roncando os girassóis,
Vai nascer o sol. Ônibus parou, Maria subiu.
El sonha ter um carro pra acender os faróis.
Madruga desde moça, agora a pele já franziu.
Vai tagarelando com as amigas domésticas,
Falam de janela, tanque, cueca e estética,
Trocam truque da faxina “engana patrão”,
Que danada algumas são. No mármore arderão!
Barulhentas de bonitezas e gargalhadas,
Os braços são cabides de sacolas e mochilas,
coletivo cativeiro de senhoras moças araras
Dona Maria, encosta cabeça e cochila.
Desperta dona Maria! Já chegou na São João.
Tem faxina na casa do seu Carlão!
Andréa Assunção Rebello


 Estante
Se os livros não estão
ao alcance da mão,
de que servem, então?
Betty Vidigal
  
Iludido ou a metáforas dos fósforos

 Ele guardava os palitos usados
Dentro da caixa de fósforos.
Não gostava de distinguir
Os vivos dos mortos.
Denis Axelrud Saffer

 Vista do Rio
Concreto
Casa fria
Estrelas sobre Ipanema
Curvas escondem os prédios do poder público
Flores retas
Crianças manuseiam ângulos
Bolas clandestinas
Velhos delegam a diversão
Em tempo de grandes carros
Há mágica colorida na televisão
Pulos sobre a cidade
O sangue impuro
Umedece os jornais
 Diogo Antonio Rodrigues


Revisitando Drummond
acordo com Carlos
sussurando baixinho:
jamais esqueça
que no meio da pedra
tem um caminho...
  Diogo Marques

 Rua Sem Chão
A rua sem chão da doce condessa
Eu passo a tarde catando pedrinhas
E as idéias mais malucas na cabeça
Como palavras que tiram o chapéu
E outras que me abrem sombrinhas
Quando o amor pinga poesia do céu.
Evandro Marques de Souza Gomes

 Disseram-me para esperar um breve segundo.
Esperei meses, anos, os braços cruzados, sozinha;
Privei-me, na demora, de desbravar o mundo
A felicidade esqueceu-se de avisar que não vinha
Gabriela Ewald Richinitti

Versironia
 O meu bem foi embora,
 Fiquei eu e a dor minha,
 No ônibus que sai agora
Indo para o fim da linha.
No amor minha querida,
Só quem desce fica fora.
Nas paradas desta vida
ficou só, perdeu a hora.
Já embarcou outro amor,
Me amou e me fez feliz
No assento desocupado,
Também curou o desamor
De um coração que te diz:
Não tem vaga, está lotado.
 Juarez Cesar Fontana Miranda


 Cuidado
 a poesia pode
estar debaixo
do seu sapato
e pode também
não cheirar bem
 Juliana Maffeis
  
Setembro
compor azulejos
com fragmentos
da memória
recolher suave
esquecimentos
quando tudo
(seguro em essências)
são cinzas.
transpor ao nome
a imensidão dos pássaros
 recostar gaivotas
em troncos
palavras em
asas
aves em
ninhos.
Maria Carolina Rangel De Bonis


 Embalagem
Embalo a dor
na seda dos versos
e largo a lembrança
sem laço de fita.
 Márcia Maranhão de Conti

 Agora
Te amo
(talvez de sapatos).
Se a calma do quarto
For cama aberta,
Se a brisa da hora
For chama acesa
Maurício Gomes
Sujeitos Ocultam
O Eu lírico
passou debaixo da roleta,
o cobrador nem percebeu.
Milton Braga da Motta Júnior

  Redondeto
 Tento escrever um soneto
que conte o meu pensamento
Ah, quantos erros cometo
não sei captar o momento
Risco, rabisco idéias
busco expressar a emoção
Fico perdido nas teias
das coisas do coração
Acho palavras sonoras
não faço um belo poema
as rimas ficam de fora
Saio do rumo, do tema
tudo complica, demora
Desisto. Vou ao cinema.
 Paulo Sergio Goulart

  Frasco de perfume
Guardo em meu quarto, sobre a penteadeira,
e, de cartões-postais de amor em meio,
frasco de perfume ainda cheio
que traz-me uma alegria passageira.
“Quem dá mais?...” Num impulso arremateio-o
no leilão. “Contém notas de madeira
do oriente...” Truques da ilusão fagueira
de esperar pela dama que pranteio.
“Doação, senhores, de gentil sultana!...
Dou-lhe uma...” Um só borrifo me conforta!
“Bebam do aroma especial que emana...”
Então ouvi teus passos pela escada...
O coração pulsar atrás da porta...
“Vendido ao cavalheiro ali na entrada!...”
 Reginaldo Costa de Albuquerque

Dúvida mortal
 Insisto no ponto final
das ciências
Ou me converto pra religião
das reticências?
Renan Osvaldo Pacheco

  E chega o outono
 Quando todos os sorrisos
Viram cães sem dono
Ricardo Fontana Alves

Chorando (Porto) Alegre
 O Bar Alasca finou-se
na esquina da Osvaldo Aranha.
Fiquei órfão
de álcool & de utopias.
Trattorias saíram a trote.
Restaram saudades
 ao sugo & carbonara.
O Teatro Um virou sauna
os cinemas, templos e bingos.
Sobrou pouco, quase nada...
A cidade-espelho
reflete-se, agora,
em minha desesperança.
 Ricardo Mainieri

 Relento
Na janela embaçada
o coração, riscado a dedo
derreteu aquele gelo
Rodrigo Domit

 Retorno
 Quando volto para casa, ao fim do dia,
Pelos bancos, corredores, buscam a vida.
É imensa a multidão que não percebe
Minha enorme cegueira de alegria.
Os rostos que me cercam todos tristes,
Derrubam suas máscaras no chão.
Pelo vidro da janela, então, descubro
Que são reflexos da minha própria solidão
A viagem prossegue, enquanto espero
Novos rostos, novas máscaras felizes,
E nova vida, já na próxima estação
Tânia Maria Melo da Silva

 Perigeu
Uma lua mais brilhante
Lua bela, em meio ao breu.
Mais visível, plenilúnio:
Uma lua perigeu.
Lua plena, lua minha,
Julieta sem Romeu.
Nunca soube, bela Luna,
Se eras tu, se era eu.
Lua bela, reluzente,
A rainha e o plebeu.
Nunca soube, Luna plena,
Se eras tu, se era eu...
Tatiana Alves Soares Caldas

Violeta
 Com tais aromas
Quem julgaria
Que és tão modesta
 Que mal assomas
À luz do dia,
Nesta rua sem floresta?
Para que entendas
Que assim veladas,
São nossas prendas
Mais estimadas
As almas discretas
São como as violetas.
Veridiana Vanessa Dattein

2 comentários:

Ricardo Mainieri disse...

Valeu, obrigado pela divulgação dos poemas, o meu em particular.
O livro é uma meta que todo escritor persegue. No entanto, estar disponível para milhares de leitores, com a possibilidade de trazer mais gente para o mundo da Arte é muito importante.

Abraço.

Ricardo Mainieri

Dalva Maria Ferreira disse...

Eu participei desse concurso, e quero participar de tantos quantos houver. Linda iniciativa, tinha que ser de POA, uma terra de escritores.