terça-feira, 8 de março de 2011

HOMENAGEM EM FORMA DE POESIA GAUDÉRIA NO DIA INTERNACIONAL DA MULHER

  Poesia de autoria de Dimas Costa


                                      Chinoca,
                                      quando te vejo,
                                      virando a ponta da trança,
                                      num passo de pomba mansa,
                                      andando pelo terreiro.
                                      Fico bombeando de largo,
                                      meio abombado de apreço
                                      que dizem que até pareço
                                      um sorro velho e matreiro.
                                     Esse teu corpo, chinoca,
                                     tem meneios sedutores,
                                     convite para os amores,
                                     mangueadas para o pecado.
                                    Ah, se eu pudesse, chinoca,
                                    ter um dia esse teu porte
                                    jungido num laço forte 
                                    no meu peito palanqueado.
                                    Sentir teu corpo tremendo
                                    como presa de mundéu,
                                    corcoveando no escarcéu
                                    na volúpia dos desejos.
                                   Te juro, chinoca linda,
                                   que, sem ter de ti piedade,
                                   te dava, barbaridade,
                                   uma sumanta de beijos.


Glossário:
Chinoca – É como o gaúcho da campanha chama a mulher. A origem vem da palavra china, por ela ter, por ser descendente de índios, os olhos levemente puxados e a tez morena, como as chinesas. (O Aurélio diz que o termo china vem do quichua tchina, (fêmea de animal, pelo hispano-americano china). Eu acho que, traduzindo para o baianês ou carioquês, significa algo como "neguinha".
Bombeando – Olhando, observando, espreitando.
De largo – De soslaio, a uma pequena distância.
Abombado de apreço – Atônito por ver tanta formosura. No sentido figurado, abombado‚ como se tivesse sido atingido por uma bomba.
Apreço – consideralão ou estima por alguém.
Sorro – Espécie de raposa latino-americana, mamífero muito comum nos campos da fronteira do Brasil com o Uruguai e a Argentina. A palavra vem do espanhol zorro (pronuncia-se sorro, que significa raposa).
Matreiro – Esperto, astuto e curioso como a raposa.
Meneios – Movimentos de corpo, gingado, manemolência.
Mangueadas para o pecado – armadilhas para o pecado. Manhas que levam ao pecado.
Porte – corpo.
Jungido – amarrado, atado, preso
No peito palanqueado – preso como as cordas ficam nos palanques (tronco ou esteio fincado no chão ao qual o peão se apoia após laçar e prender cavalos para domar ou encilhar, ou bois para curar da bicheira. Não confundir esse palanque com o lugar onde os políticos fazem discursos.
Presa de mundéu – Mundéu‚ armadilha para aves, especialmente perdizes. Uma pequena forca feita com crina de cavalo trançada, colocada no caminho das perdizes de modo que as aves se enforquem ao passar em uma vereda criada com ramos de vassoura (esse arbusto, em Bagé‚ é chamado de chirca).
Corcoveando no escarcéu – A imagem da perdiz se debatendo ao ser presa. A mulher se agitando no alvoroço da emoção. Corcoveios, no original, são os movimentos do cavalo na tentativa de derrubar o cavaleiro.
Na volúpia – (grande prazer sexual) dos desejos.
Sumanta – do espanhol sumanta, significa tunda, surra.


Dimas (E), com Darci em 1957
Sobre o autor:
Dimas Costa, nasceu em Bagé, no dia 20 de janeiro de 1926. Morou muitos anos em Tapes e morreu aos 74 anos, no dia 11 de julho de 1997, de parada cardíaca em Porto Alegre. Como radialista, participou do Grande Rodeio Coringa, com Darci Fagundes. Foi o autor da música Parabéns Crioulo (que tu tenhas sempre todo o dia paz e alegria na lavoura da amizade), em parceria com Eleu Salvador. No cimena, participou dos filmes Gaúcho de Passo Fundo (com Teixeirinha), Não Aperta Aparicio (com José Mendes) e Para-Pedro, também com José Mendes.

Um comentário:

Clarice disse...

Colho um pedacinho da homenagem e agradeço.
Obrigada pela visita.
Abraço.