quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

SOBRE A FACILIDADE COM QUE ATRIBUEM AUTORIAS EQUIVOCADAS DE TEXTO NA INTERNET

Publiquei recentemente por aqui um post com uma comparação entre as antigas enciclopédias e a Internet. Um dos pontos era a facilidade com que muitas pessoas cometem plágios. Outra imbecilidade é pegarem um texto de alguém e atribuírem a alguma outra pessoa aproveitando-se da popularidade do nome escolhido. Descobri um desses casos recentemente. Chegou ao meu conhecimento um belo texto que começava com "Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de amoras."O texto era atribuído a Mário de Andrade. Depois li o mesmo texto com autoria creditada para Rubens Alves. Decidi investigar e descobrir que a poesia não é de nenhum dos dois citados, mas sim do teólogo Ricardo Gondim, de 61 anos. Alguém pegou o texto do blog de Ricardo, suprimiu partes em que falava sobre objetos e coisas modernas, trocou as jabuticabas por amoras e inventou que o autor era Mario de Andrade. Até mesmo o ator Antonio Abujamra, quenos deixou nesse ano, havia gravado o texto acreditando de que era de Mario de Andrade. Se alguém tiver alguma informação nova, por favor me ajude.

Tempo que foge!
Ricardo Gondim

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não vou mais a workshops onde se ensina como converter milhões usando uma fórmula de poucos pontos. Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.
Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos parlamentares e regimentos internos. Não gosto de assembleias ordinárias em que as organizações procuram se proteger e perpetuar através de infindáveis detalhes organizacionais.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de “confrontação”, onde “tiramos fatos a limpo”. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário do coral.
Já não tenho tempo para debater vírgulas, detalhes gramaticais sutis, ou sobre as diferentes traduções da Bíblia. Não quero ficar explicando porque gosto da Nova Versão Internacional das Escrituras, só porque há um grupo que a considera herética. Minha resposta será curta e delicada: – Gosto, e ponto final!
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: “As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos.
Já não tenho tempo para ficar dando explicação aos medianos se estou ou não perdendo a fé, porque admiro a poesia do Chico Buarque e do Vinicius de Moraes; a voz da Maria Bethânia; os livros de Machado de Assis, Thomas Mann, Ernest Hemingway e José Lins do Rego.
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita para a “última hora”; não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja andar humildemente com Deus. Caminhar perto dessas pessoas nunca será perda de tempo.


Mais sobre "plagios" em http://migre.me/smZvf

Um comentário:

vidacuriosa disse...

Recentemente, um jornalista gaúcho escreveu a seguinte frase: "Jornalismo é publicar aquilo" que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade." E atribuiu ao norte-americano George Orwell, autor do livro "1984" e "Revolução dos Bichos". Uma ida à Internet me tirou a dúvida da autoria. Muitos blogs, muitos jornalistas famosos como Augusto Nunes, por exemplo. Uma busca mais aprofundada mostra que o autor da citação é, na verdade,William Randolfph Hearst, que foi dono em 1930, de 28 diários e 18 revistas.