domingo, 22 de novembro de 2015

UMA HISTÓRIA DE AMOR E DE TRAGÉDIA

Dois anos depois que ele havia sofrido o maior revés da sua vida amorosa ao se separar da mulher, por conta de tantos desencontros, mantinha-se firme no seu propósito de não mais se apaixonar nem se envolver em qualquer relacionamento. Sua cota de confiança nas mulheres era mínima. Até o dia em que passeava pelo aeroporto e se encantou com uma funcionária de uma locadora de automóveis.
  Ontem, ao ver um avião cruzando o céu sobre o pátio de casa, lembrou-se de uma das mulheres que mais o marcaram. Seu pensamento voltou-se para aquele dia em que a viu pela primeira vez. Morena, um pouco tímida, olhos claros, lindos, cabelo preto, crespos. não curtos nem compridos, magra, mas não muito, a jovem o tocou tão profundamente que ele decidiu transformá-la no novo amor da sua vida, abdicando daquela decisão inicial de nunca mais experimentar um relacionamento. A primeira ideia foi abordá-la diretamente, mas ficou com medo de ser rejeitado. Afinal, na única vez que ela o viu, não demonstrou qualquer sentimento que não fosse o de uma funcionária de uma empresa a um possível cliente. Por isso, tratou um plano diferente e ousado. Se iria dar certo ou não, só a tentativa responderia. Antes isso, por alguns dias, foi se informando sobre ela. Notou que não usava alianças, deduzindo que não era casada nem noiva. Nem lhe passou pela cabeça que pudesse não dar bola para convenções. Também percebeu que nenhum homem a esperava à saída do trabalho, exceto um jovem bem mais moço do que ela. Como os dois eram muito parecidos, concluiu que o rapaz era irmão dela.
 No dia em que o plano seria executado, ele tomou o banho mais bem tomado de sua vida, o mais longo e o mais cuidadoso possível. Fez a barba com esmero penteou o cabelo, repartindo-o para o lado direito e perfumou-se com discrição e caprichou no desodorante. Escovou os dentes com galhardia, ou melhor, com a pasta da melhor qualidade que encontrou. 
Antes de chegar ao aeroporto, passou em uma floricultura e escolheu um ramalhete com as mais belas gérberas que havia. Pegou um cartão e colocou um nome que escolhera ao acaso, torcendo que não coincidisse com o nome dela, que ainda desconhecia. No cartão, escreveu duas frases caprichando na caligrafia e na gramática.
"Marina,
Já que decidiste sair mesmo da minha vida, leva estas flores como uma última e boa lembrança minha. Se quiseres voltar, sabes que o meu telefone é (51) xxxx-xxxx." No banheiro do aeroporto, treinou por alguns minutos uma fisionomia de surpresa antevendo o que aconteceria. Depois, conferiu e revisou sua aparência e vestimentas e olhou outra vez para o espelho na despedida. A sua imagem repetida dublou o som de sua voz que deixava um incentivo:
- Vai que é tua, Taffarel  - lembrando-se da Copa do Mundo.
  Tenso, foi ao saguão principal e a viu em um canto. Ela recém havia saído da locadora e se preparava para ir embora. Ele chegou pelas costas dela e enlaçou-a com a mão direita, segurando o buquê de flores na esquerda e a beijando no pescoço. Assustada, ela se desvencilhou dele e desferiu-lhe um tapa no rosto. Ao mesmo tempo, ela estranhou a cara de surpresa que ele fez. Ele então pediu-lhe desculpas e alegou que a confundira com uma pessoa extremamente parecida com ela, mesmo tipo de cabelos e roupas. As flores e o tom do pedido de desculpas a levaram a entender que havia mesmo ocorrido um engano.
      Ele afirmou que havia ido ao aeroporto para se despedir de uma ex-namorada. Acrescentou que, diante do lamentável equívoco e do seu constrangimento, entregou a ela o ramalhete de flores dizendo que ficara desconcertado e que desistira de fazer a despedida que pretendia. Ela segurou as flores e ficou estática por alguns segundos, enquanto ele saía rapidamente do local.
  Em casa, à noite, diante do espelho, ele apalpava o rosto e sorria ao olhar o vermelhão que o tapa lhe produzira e ficou feliz porque era algo dela que ficara com ele. Mais tarde, depois de ler e reler o cartão, ela decidiu telefonar. A primeira palavra que ela falou foi "desculpa", os dois conversaram e marcaram um encontro no dia seguinte. Um mês depois, decidiram "juntar os trapinhos" como ela disse, relembrando os tempos em que morava em São Gabriel. Os dois fizeram questão, porém, de uma cerimônia simples, apenas para familiares. Nesse dia, ela disse uma frase marcante: "Vamos ser felizes até que a morte nos separe". E ela estava certa. Seis anos depois, no dia 17 de julho de 2007, ela viajou para São Paulo para visitar uma tia. Pouco depois das 19h, ele viu o noticiário da televisão informando que o voo 3054 da TAM terminara em acidente, ao aterrissar na capital paulista com 187 pessoas a bordo. Nenhuma sobreviveu.

3 comentários:

Dalva M. Ferreira disse...

Vida danada, que nos prepara essas ciladas. Não há como prever!

Anelise Brasil disse...

custava muito dar um final feliz?

vidacuriosa disse...

Custar acho que não custava, Anelise Brasil. Eu e muitas outras pessoas ficamos tristes com esse final infeliz. Acontece que, quando comecei a escrever este texto, nem eu mesmo sabia como terminaria. Quando vi, surpreendi-me também com a forma como tudo terminou. É ficcão, mas me pareceu muito parecido com a realidade.