terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

EXTRATO DA(S) MINHA(S) MEMÓRIA(S)

Seu Egídio tinha por volta de 40 anos quando eu era guri, lá em Seival, na época 3º distrito de Bagé. Peão, alambrador, changueiro, ele fazia de tudo. Era negro, alegre, bonachão, um típico gaúcho guasca no jeito de falar e de vestir. Parecia ter sido tirado de um romance do Érico Veríssimo ou do Cyro Martins, mais propriamente deste último porque era um gaúcho pobre. Tinha a autenticidade, a espontaneidade e a ingenuidade (para algumas coisas)... do homem Campanha. Um dia, ele pegou um ônibus de Bagé para Seival e perguntou:
- Que é tu que me cobra pra me levar até a Vila do Seival?
- Vinte cruzeiros - informou o cobrador.
- E se eu descer meia légua (3 km) antes, ali na granja do Seu Walter?
- É o mesmo preço.
Seu Egídio ficou conjuminando e falando consigo mesmo:
- Mas esses malevas fias-das-puta tão me levando dinheiro no mole. Não te "pélo", chê!
Pensado isso, medidos e pesados os pós e os contras, chegou à conclusão de que estava pagando mais do que deveria. Pois iria usufruir então do serviço a que tinha direito. Foi o que decidiu quando passou pela ponte do Jaguarão e não desceu. Foi até o Seival... e voltou a pé para a granja.
Muitos anos mais tarde, em 1975, meu pai se mudou para Porto Alegre e resolveu tornar realidade um antigo sonho do Seu Egídio: conhecer a Capital. No meio do caminho, pararam em um restaurante perto da entrada para Cachoeira do Sul. Ao tomar café, Seu Egídio teve a primeira dificuldade com a diferença dos hábitos. Não conseguia usar aquele açucareiro de bater no traseiro. Decidido, desenroscou a tampa, tirou com colherinha e repôs a tampa, mas sem reenroscar. Quando meu pai foi adoçar seu próprio café, virou todo o açúcar na xícara.
Seu Egídio ficou na nossa casa, na Rua João Alfredo, ali ao lado de onde está o Supermercado Nacional, na parte da rua que virou Avenida Cascatinha, e andou com a gente pela cidade. Ele gostava também de caminhar pelas imediações, e minha mãe o alertou para que tomasse cuidado para não se perder. Foi então que se saiu com esta:
- Não se preocupe, Dona Ítala. Eu vou sempre olhando pra bola. Se eu não enxergar mais a bola, eu volto um pouco e não me perco.
A bola a que ele se referia era o globo que existe no topo da Igreja Pão dos Pobres. (IV 100%)

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