terça-feira, 12 de novembro de 2013

UMA HISTORIA DE MARIA DO CÉU, UMA DAS IRMÃS DO AMIGOMEU

Maria do Céu é a caçula da família do Amigomeu. Como os demais irmãos, tem no nome a marca de uma personalidade forte do pai deles, o seu Waldemar. Rapa do tacho de uma família de seis filhos, foi batizada assim porque essa foi uma das entusiasmadas frases que o pai dela ouviu da esposa no momento da concepção. Seu Waldemar contou um dia, depois de ter tomado umas cachaças no churrasco, que tinha sido o maior momento de sexo que sua mulher, Dona Idalina, tinha vivido. Quando a filha nasceu, ainda se lembrando daquela noite, ele pensou em botar no nenê o nome de Minha Nossa Senhora, mas achou que ia ficar muito cumprido e a registrou como Maria do Céu. Se ele tivesse contado ao escrivão do cartório o motivo do nome e, se o funcionário fosse letrado, certamente teria colocado uns dois pontos de afirmação ao lado do nome dela na certidão.
  Maria do Céu trabalhou bastante na vida, primeiro ajudando a mãe nas lidas da casa. Depois, quando se mudou para Bagé com a família, foi balconista de uma livraria, cuidou de enfermos e estudou o ginásio no Instituto São Pedro, no bairro Povo Novo, também conhecido como Getúlio Vargas. Aliás, Getúlio era o nome do irmão mais velho, que ganhou esse nome por causa da admiração do pai pelo presidente. Seu Waldemar não admitia alguém dissesse na sua frente que o presidente de São Borja tinha sido ditador. Além do Amigomeu, cujo nome foi uma homenagem que seu Waldemar quis fazer a um vizinho, do qual esqueceu o nome na hora de registrar, Maria do Céu era irmã também de Deudeci, talvez a mulher mais magra do mundo, de Deuseamor, o Momô, que virou pastor e foi morto por engano pouco depois de sair do templo, e Amaralina, em homenagem a uma garota que seu Waldemar conheceu em uma praia de Salvador durante uma viagem.
  Quando veio com Momô, Deudeci e Amigomeu para Porto Alegre, Maria do Céu arrumou um emprego. Mas trabalhava tanto, sofria tanto com as correrias da cidade grande, chegou a um ponto de estafa tão grande que acabou tendo problemas de cabeça. Quando a aconselharam a fazer terapia, consultou um psiquiatra, que também atuava como médium em um centro espírita nas horas vagas. Logo que começou a relatar suas angústias, o médico perguntou se ela ouvia vozes.
 - Sim. Ouço frequentemente vozes estranhas, algumas de gente que falava coisa sem sentido e a maioria como se estivessem bêbadas.
- Isso é muito comum – acrescentou o psiquiatra com um ar de quem conhece tudo sobre este e sobre o outro mundo.
Foi então que fez a pergunta mais importante:
- E desde quando tu ouves essas vozes, minha filha?

- Desde que me trocaram de turno e comecei a trabalhar à noite no Diário Gaúcho. Eu sou telefonista. 

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