sábado, 3 de agosto de 2013

A FESTA NO CÉU NO LINGUAJAR GAUDÉRIO

São Pedro, o capataz da estância Lá de Cima e padrinho do Rio Grande do Sul, um dia estava olhando aqui pra baixo, sem nada pra fazer e estendeu a vista ao longo das coxilhas. Achou o bicharedo meio triste, decidiu fazer uma festa no céu e mandou um chasque para convidar os animais. Mas a grana estava curta, não tinha patrocinador e, por isso, que viesse quem pudesse. Os que não tinham asas e os alados que não voavam, como o avestruz, ficaram tristes. Menos o Sapo, que era um baita boca grande e não se entregava assim no mais. Ele assegurou que não perdia essa festa “mas de jeito nenhum”, nem que a vaca tossisse, espirrasse ou lacrimejasse. Ninguém acreditou nele.
Na véspera do dia da festa, o Sapo foi visitar seu compadre e amigo Corvo. Os dois tomaram chimarrão, cantaram ao som do violão do corvo, trocaram piadas e conversaram até o início da noite, mas nem tocaram no assunto da festa porque o Corvo estava chateado pelo fato de que o amigo não poderia ir. Por dentro, ele estava eufórico porque haveria comida e ele já estava cansado de só comer carniça.
 Quando o sol se pôs, o Sapo se despediu do compadre. Saiu, fez que foi mas não foi e acabou não indo. Entrou por uma janela e se escondeu dentro do violão do Corvo. No outro dia, bem cedo, o Corvo, botou o violão nas costas e alçou voo em direção ao Céu. Ao chegar lá, encostou o violão num canto e se atirou nas comilanças. Tinha torresmo do bom, tinha bolinho de mandioca, até bolinho de chuva. O Sapo então saiu de dentro do violão e também se maravilhou com a comilança e a bebelança. Os outros animais também. Tinha um que não recusava nada: se perguntavam se ele queria cachorrinho-quente, ele dizia: quero-quero; se ofereciam negrinho, ele falava: quero-quero. Dona Coruja olhava tudo com os olhos arregalados. Estranhou principalmente o  fato de o Sapo estar ali. Se não tinha asas, como é que o maula chegou ao Céu? Foi uma bailanta das boas.
 Lá pelas  tantas, no final da festa, o Sapo viu que o Corvo já estava se preparando para ir embora. Ele correu até o violão e entrou com dificuldades, já que havia comido muito. Apertou suas banhas daqui e dali e se ajeitou dentro da viola. O Corvo pegou o violão e empreendeu a viagem de descida. Achou que o instrumento musical estava muito pesado e que a volta estava mais difícil do que a subida.
    Aí olhou dentro do violão e viu o Sapo. Mas era muita desfaçatez do compadre. O Corvo virou o violão, e o Sapo caiu, foi caindo, foi caindo e se estatelou em uma pedra. Aí o Corvo ficou com pena, foi na casa da Dona Coruja, que já tinha voltado, pegou agulha e linha e costurou o Sapo, que tinha ficado todo esbagaceado.
    O compradre voltou a si, agradeceu e saiu pulando e gritando:
 - Mas bá, bailanta no céu, nunca mais! Dizem que, por isso, o Sapo tem o corpo todo achatado que nem chinelo de gordo e com sinais de ter sido costurado.

Um comentário:

Sandra Nunes disse...

Que lindo, querido!
Fiquei aqui, vendo todos eles, faceiros e produzidos na Festa. impossível não imaginar, coma beleza do teu texto e poesia!!
Beijos!
Viu só, aprendi a fazer comentário por aqui, não sou mais tão antinha na Web,rsrs