sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

HISTÓRIAS DE QUEM ANDA DE ÔNIBUS

Todo pai cujo filho tem habilidades musicais não pode ver uma criança na rua com algum instrumento que logo o aborda e puxa conversa. Com quem tem filho excepcional isso também acontece. Basta ver alguma outra pessoa com aparência de especial e logo inicia um contato com ele e com o familiar que o acompanha. Na manhã de ontem, no ônibus, vi um menino com traços de Síndrome de Down no colo da mãe e, quando percebi, já estava estava ao lado deles.

- Como é o nome dele? perguntei.
- Péricles, respondeu a mãe, enquanto o garoto me mostrava intencionalmente a língua.

- Ah, igual do cantor de pagode – estendi o papo.
- Não. Do filósofo grego – respondeu-me a mãe.
Assimilei o “golpe nos dedos” e, antes que eu perguntasse o motivo do nome, a mãe de Péricles informou que o pai dele é filósofo.
- Então não seria bom eu ter falado no pagodeiro. O pai não iria gostar...
- Ele não iria se importar não. Ele respeita qualquer música. Mas não gosta desse tipo de pagode.
Levei nos dedos de novo. Em menos de três minutos de conversa, a mãe mostrou-se orgulhosa do filho de sete anos. Contou que ele fala normalmente (só é sapeca demais), está em uma escola normal e neste ano começa a aprender música em Capão da Porteira, distrito de Viamão. Contou que Péricles já pega direitinho o violão e toca umas musiquinhas. E gosta de gaita também.
 Depois de pôr a língua para mim, de novo, Péricles desceu do ônibus com a mãe. E eu, que havia tomado a linha por engano, nem me importei. Se tivesse pegado o ônibus certo, não teria conhecido o grande Péricles, o tesouro do filósofo, da mesma forma que o Luciano é o meu.

Um comentário:

Dalva M. Ferreira disse...

E tinha perdido a oportunidade para escrever a crônica!