quarta-feira, 30 de maio de 2012

UMA POESIA GAUDÉRIA QUE ME FAZ LEMBRAR OS CAMPOS DO SEIVAL

  O grande Giovanni Grisotti, um dos maiores repórteres investigativos deste país, curte o movimento tradicionalista nas horas em que não está a serviço da sua atividade de deixar o Brasil menos corrupto. Além de ser fã dos monarcas e de participar de bailes de CTGs, curte, como eu, textos e poesias sobre a vida do campo. Em post dele no Facebook, encontrei essa preciosidade da cultura gaúcha. É a poesia louco do não menos talentoso compositor e músico Vaine Darde, cuja biografia você pode curtir mais abaixo.


Eles me interditaram...
Afastam-me das domas,
Não me deixaram usar adagas,
Nem, sequer, cuidar do fogo...
E conspiram contra mim
Com silêncio e solidão.
  Pois alegam, uns aos outros,
Que me tornei perigoso
Desde quando me encontraram
Conversando com as ovelhas,
Desde quando descobriram
Que eu cultivo girassóis
Por devoção às abelhas.

Dizem que ando variando
Com milongas circulares
Na canção dos cataventos,
Que fiquei de miolo mole
e me desfiz das esporas
Por ter pena dos cavalos...

Proibiram-me transpor
Os limites da porteira
Numa espécie de desterro
Que me exila na querência.
Mas, eu sei que eles não sabem
Que os olhos de quem sonha
Veem além dos horizontes...

Eles dizem que sou louco
Porque vago pela estância
Conferindo cada ninho
Onde os voos eclodiram,
Fazendo tenda do pala
sobre o topo das coxilhas
Pra navegar nas estrelas
Nessas noites de verão...

(Imagina se soubessem que eu carrego,
nos pessuelos, uma colmeia de versos...)

Mas enquanto eles proseiam
Agrupados no galpão,
Para encantar meu silêncio
O vento canta pra mim,
As sangas cantam pra mim,
Os grilos cantam pra mim.

Enquanto eles, que se julgam certos,
Tomam mates sonolentos
Com a água da cacimba.
Eu, numa cambona de açude,
Sorvo a lua num porongo
E povoo a solidão
Com as ausências que me habitam.

Eu embrulho a palavra
Numa folha de papel
Onde guardo traduções de ocasos e auroras,
Onde exponho meu silêncio
Com zumbidos de abelha
E confesso a ternura
Que dedico aos que me odeiam.

Eu trabalho mais que eles.
Sou só um nas sesmarias
Pra saber de cada flor,
Pra saber de cada pássaro
Com que o campo sinaliza
E os outros não percebem...

Eles, sequer, reparam
Quanto sol de cada dia
Se acumula nas laranjas,
Que porção de lua cheia
Se derrama em frenesí
Na gestação da semente.
Eu, sim, eu sou livre entre
o campo e as estrelas,
Eu sei todos os caminhos
que a querência me revela
Porque vivo além de mim
O que a vida me concede.

Mas, se louco é ser dono de si mesmo
E saber que as laranjeiras
Choram lágrimas de pétalas
Num cio vertiginoso
De excessiva floração,
É ter consciência plena
Que a loucura é a poesia
Que, por não caber do peito,
Se extravasa em dialetos
E ilumina seus eleitos:

Então eles estão certos:
Eu sou mesmo perigoso,
Uma ameaça constante
De povoar o galpão
Com guitarra e ar-iris,
E abelha, e girassol.

Não, não é a mim que eles temem
Porque sabem inofensivo
Meu delírio musical...
O que eles não suportam
É aceitar a realidade
De um louco ser feliz.

O AUTOR
Vaine Darde

Vaine Darde, natural de Uruguaiana-RS, iniciou sua carreira como compositor e poeta em 1978 quando foi premiado no concurso Apesul Correio do Povo Revelação Literária. Em 1988, em parceria com Gaúcho da Fronteira ficou conhecido em todo o país com a música Vanerão Sambado, que ganhou discos de ouro e de platina. Em nova parceria com Gaúcho da Fronteira, gravada pelos Engenheiros do Hawaí, Herdeiro da Pampa Pobre, afirmou-se no cenário musical do Estado. Recebeu, por dois anos consecutivos, o troféu Vitória concedido pela Secretaria da Cultura. Em 2004, ganhou o troféu Clave do Sul como melhor letrista dos festivais.
Com mais de 800 músicas gravadas por artistas gaúchos e de outros estados, entre eles duplas sertanejas, é um dos compositores mais premiados do Rio Grande do Sul.
Detentor de uma centena de prêmios de festivais, conquistou em 1989, em parceria com Elton Saldanha, a Caleandra de Ouro, prêmio máximo da Califórnia Canção Nativa, evento que originou o movimento nativista. Possui uma coletânea de sua obra gravada pela gravadora Usa Discos em discografia que inclui 12 poetas consagrados, intitulada Autores do Sul. Seus poemas e sonetos compõem várias antologias. (Do site www.sonetos.com.br)




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