quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

HOMENAGEM A UM CONTADOR DE CAUSOS MUITO ESPECIAL


Walter Vieira Nunes
Corriam os anos 60 no sobrado do povoado de Seival, majestoso diante da estação ferroviária, onde vivi parte da minha infância. Naquela época, ainda não existia televisão, e criança não tinha acesso ao botão do rádio, escutava-se o que os pais gostavam. Para conhecer as histórias do mundo, havia os livros da modesta biblioteca da escola, lidos avidamente, os filmes nos cinemas nas esporádicas visitas a Bagé, ou os causos contados com talento por um pai presente.
    E é a esse pai, Walter Vieira Nunes, que eu quero agradecer pelo carinho e dedicação que sempre teve por mim e pelos meus cinco irmãos. Nascido em 22/2/1922, se estivesse vivo, meu pai estaria completando 90 anos hoje.

 Sobrado: Andréa Carvalho pintou baseada em foto de Roberto Mog dos Santos 

Lembro-me como se tivesse sido ontem à noite. Sentados em um grande pelego, diante da lareira, na sala, algumas vezes acompanhados de primos, ouvíamos encantados os contos narrados por meu pai e tirados da memória. Ele estudou apenas até o quinto ano primário (hoje ensino fundamental), era magnífico em fazer contas “de cabeça”, mas não tinha o costume de ler. As histórias, porém, eram fabulosas, algumas cavernosas que nos arrepiavam, como a de um ser misterioso que deixava cair, um a um, braços e pernas do teto de uma casa para depois se juntarem ao corpo.
   Uma das histórias que mais me marcaram foi a de um jovem recém-casado que deixou a mulher no povoado em que viviam para conseguir um emprego decente que lhes proporcionasse um futuro digno, para eles e para os filhos que viriam. Não se onde meu pai tirava esses contos, mas deve ter sido uma transmissão oral de família. No ano passado, recebi um e-mail exatamente com esse conto, com algumas variações em relação ao que meu pai contava, mas o miolo era o mesmo. Não consegui descobrir a origem do e-mail. Com minhas palavras, recrio a história:
   “Pois Ernesto disse à esposa, Marina, que o esperasse. Assegurou que a amava e que nunca iria esquecê-la ou traí-la. Assim que conseguisse juntar um bom dinheiro, voltaria. E então ele viajou e arrumou emprego em uma estância bem longe dali. Trabalhador incansável, tinha muito talento para as lides do campo. E se destacou na arte de domar cavalos. Amansava os potros xucros que ninguém tinha coragem de montar e, sobretudo, era de uma retidão moral admirável. Isso o fez cair nas graças do patrão da estância, que havia perdido um filho adolescente, e o jovem o fazia lembrar-se dele.
   Ernesto fez um único pedido ao patrão. Não queria receber o dinheiro todo mês. Gostaria que o guardasse em lugar seguro e o entregasse apenas na hora em que ele fosse embora. Ele não era gastador e levava a vida entre os animais do campo, laçando, curando as bicheiras de bovinos e equinos, cuidando do gado. Quase não tinha diversão a não ser apreciar o espetáculo da Natureza. Ia ao povoado próximo apenas para comprar alguns mantimentos, poucas roupas e produtos de higiene. Seu talento fez com que o patrão o promovesse a capataz.
   O tempo foi passando e, de repente, já estava havia quase 20 anos na estância. Foi então que resolveu voltar para casa e realizar o sonho planejado. O capataz avisou ao patrão da sua saída, e foi um dia bem triste na estância, especialmente para o fazendeiro e para a mulher dele, que se afeiçoara àquele empregado competente e de bom coração.
   O estancieiro então trouxe uma mala com o dinheiro a que o funcionário tinha direito. A mulher dele entregou-lhe um bolo que ela mesma tinha confeccionado, mas alertou-o de que ele somente deveria cortá-lo quando estivesse na presença da esposa. O fazendeiro, por sua vez, depois de abraçá-lo comovidamente, dirigiu-lhe algumas palavras:
- Sinto como se meu filho estivesse saindo de casa. E, como se fosse para ele, deixo-te três conselhos que, tenho certeza, vão te ajudar na vida. E não nos esqueça. Teremos muito prazer em recebê-lo como visita.
Os três conselhos eram o seguinte: Nunca pouse em casa onde o marido for velho e a mulher, nova. Nunca troques um caminho antigo por um atalho. Não tomes decisões a partir de apenas um primeiro informe.
O rapaz guardou aquilo na cabeça, despediu-se dos patrões e dos outros empregados e se foi, a trotezito, no cavalo zaino que havia ganhado de presente. Era bem cedo quando saiu. Ele lançou um olhar de saudade para o campo no qual trabalhou, para o gado, para os cavalos, para os outros bichos criados pela Natureza e livres pelas coxilhas e matos. Na saída, ainda no escuro, divisou uma coruja com seus grandes olhos, pousada em um moirão da cerca, como se enviasse um adeus. Foi um início de uma longa cavalgada. Depois de duas ou três paradas, para dar água ao cavalo, acampou na beira da estrada do corredor para almoçar. Fez um foguito amigo, cozinhou uma panela de arroz carreteiro e depois ficou olhando para o horizonte, sentado sobre os pelegos, enquanto o zaino descansava.
Quando a jornada recomeçou, cruzou por quero-queros, admirou as garças nos banhados, viu preás atravessando a estrada e até capincho banhando-se no arroio. Quando estava anoitecendo, precisava parar para dormir e viu-se na frente de uma casa. Bateu palmas e gritou ô-de-casa. Surgiu um gaúcho de cabelos brancos, bota amarela, que lhe mandou apear. O proprietário do lugar ofereceu-lhe pouso.
- Tire os arreios do pingo, que já vou preparando um mate – disse o homem.
   Ainda estava afrouxando a cincha quando surgiu na porta uma mulher nova. Era linda, com cabelos cacheados e olhos azuis. Ele pensou que ela fosse filha do dono da casa e, quando a jovem se identificou como sendo esposa dele, Ernesto lembrou-se do patrão. Primeiro considerou aquilo um preconceito, mas decidiu obedecer ao conselho e interrompeu a retirada dos arreios. Já tinha recolocado o lombilho, a cincha e o pelego. Quando apertava a sobrecincha, chegou o dono da casa com uma chaleira na mão e o chimarrão na outra.
   - O senhor me desculpe, mas mudei de idéia. Agradeço a sua hospitalidade, mas decidi tocar de noite mesmo para chegar mais cedo no meu destino.
Mais tarde, conferiu pelas estrelas que já passavam das onze e meia quando se aproximaram dele três jovens cavaleiros. Os quatro conversaram sobre todos os assuntos, as carreiras de cancha reta, os bailões de arrasta-pé, até que Ernesto contou-lhes que desistira de pousar na casa do homem velho com mulher nova.
- Tu nem sabe o quanto tu acertaste – explicou um dos cavaleiros. - A mulher é tão sirigaita quando bonita, e o homem tem um ciúme doentio que só vendo. Já mais de três acabaram morrendo nas mãos dele durante uma pousada.
   Os quatro seguiram conversando até que um deles sugeriu:
- Neste ponto tem um atalho que nos permite chegar mais cedo à vila. Vamos lá?
   Ernesto lembrou-se do segundo conselho e decidiu continuar pela estrada velha. Depois de dormir uma hora no campo, chegou à vila, por volta das sete horas da manhã e dirigiu-se à casa em que morava havia 20 anos. Local havia  apenas uma tapera tomada de mato. Para saber notícias da mulher, foi até o único bolicho do povoado. Antes que pudesse fazer alguma pergunta, ouviu a conversa do dono da venda, que tomava chimarrão, com um dos fregueses. O homem que bebia uma caninha pura num copinho de vidro contou o sucedido na noite passada: três homens que cavalgavam foram assassinados e mortos no início da madrugada. Ernesto então lembrou-se de quanto estava certo o patrão da estância.
   A seguir, perguntou ao dono do armazém sobre o que havia sido feito de Marina. Ao ouvir o nome dela, o comerciante comentou:
- Ah, a mulher do padre. Ela reside a poucas quadras do local onde morava.
  Uma vermelhidão subiu pelo rosto do peão. Enquanto se dirigia para o local, amaldiçoava primeiro a si mesmo por ter demorado tanto, depois àquela a quem dedicara todo o seu amor e fidelidade. Sem conseguir raciocinar direito, pensou em matá-la e também o padre, se o encontrasse.
   Quando chegou à casa dela, nem bateu palmas. Passou pelo portãozinho de madeira e foi entrando. Na sala, encontrou Marina no sofá, fazendo cafuné no rapaz que vestia uma batina preta. Com os dedos, a mulher percorria o cabelo do religioso. Sem se controlar, Ernesto não disse uma palavra. Pegou o facão e investiu contra o padre. Foi interrompido pelo grito dela:
   - Não mata que ele é o teu filho!
   Foi então que ficou sabendo que havia deixado a mulher grávida. O filho cresceu e tornou-se padre.
   Os três abraçaram-se e choraram de alegria. Ernesto lembrou-se que a emoção não o deixara pensar no terceiro conselho: não tomar decisão baseado apenas no primeiro informe. Antes de começar a contar a sua história, Ernesto colocou o bolo sobre a mesa e, ao cortar a primeira fatia, teve mais uma surpresa: dentro do bolo, havia mais dinheiro enviado pela fazendeira, como prêmio pela sua dedicação e afeto a toda a família.
   No dia seguinte, o padre despediu-se dos pais e viajou para a paróquia à qual havia sido designado. Com o dinheiro recebido, Ernesto e Marina compraram uma boa casa e garantiram o futuro deles e de mais dois filhos naturais e dois adotivos. Com em todas as histórias antigas, foram felizes para sempre."

Filho de um uruguaio com uma brasileira, Walter Nunes nasceu em Bagé no dia 22/2/1922 e morreu, na mesma cidade, aos 81 anos, em 17 de novembro de 2003. Trabalhou em várias atividades, inicialmente como negociante de couros, depois como comerciante de secos e molhados e posteriormente agricultor e pecuarista. Foi subprefeito e subdelegado do distrito de Seival, então pertencente a Bagé, na década de 60. Casado com Ítala Pereira Nunes, era pai de Dóris (falecida em 2011), Dilmar (falecido em 2009), Plínio, Sandra, José Itamar e Valtuir.

3 comentários:

Letras Saltitando disse...

Ai que lindo esse post. Daí que vem a tua veia em escrever contos e causos!
Eu sou de Rivera, bem pertinho de Bagé!!!

Nadiane C.S.Momo Spencer disse...

Parabéns pelo texto, além de bem escrito, é muito bom saber que nossos pais deixam mais que lembranças, mas valores e muito orgulho, abraço!!!

vidacuriosa disse...

A autora do retrato, a artista plástica Andréa Carvalho (d_artes@ibest.com.br) trabalha na Rua Otávio Rocha, no Centro de Porto Alegre, em frente ao número 16, às quartas, quintas e sextas.