sábado, 26 de novembro de 2011

UMA RECEITA MÍSTICA PARA SOLUCIONAR UM CASO DE AMOR ROMPIDO

   Nunca pensou que iria se sentir assim. Quando ela disse que tudo estava terminado entre eles e se foi, achou que ela havia levado um pedaço do seu coração. Na verdade, deve ter sido um pedaço do pulmão. Isso porque imediatamente ele teve dificuldade de respirar. Irrequieto, ia de um lado para o outro do apartamento. Quando se dava conta, estava na área dos fundos, ou saía na frente, tentando respirar.
     A falta de oxigênio deve ter atingido também o cérebro. Isso talvez explicasse aquela confusão de ideias, aquela mistura de imagens do passado e os planos se desfazendo em pedaços. A visão também parece ter sido atingida. Cada menina que ele via parecia ela, mesmo que os cabelos fossem diferentes, mesmo que as roupas fossem diferentes. A audição também foi afetada. Cada barulho na porta parecia indicar que ela voltara. Cada voz feminina que ouvia parecia ser de palavras dela. Aquele mal chegou também ao estômago. Não conseguia comer nada e foi emagrecendo um pouco a cada dia.
     Ele não teve vergonha de dizer que chorou, que sofreu demais. Sem dinheiro para pagar psicólogo, aceitou um conselho de procurar um centro de umbanda, que é a psicoterapia dos desafortunados. Diante do preto velho incorporado em uma mulher branca e obesa, repetiu várias vezes que amava aquela garota, que iria morrer se ela não voltasse para ele:
- Mas suncê ama ela de verdade mifio? - perguntou a entidade.
- Sim, muito - respondeu.
- Não tá me pareceno que o calçudo ama mesmo essa bonecra – insistiu o preto velho, mas se tu ama mesmo ela, eu vou te dar uma receita. Se tu fizé como eu vou dizê, ela vorta pra ti. Se não, cada um vai seguir o seu caminho.
     O pai-de-santo então mandou que ele comprasse uma rosa e mandasse um menino entregar pra ela, sem dizer quem estava enviando a flor. No dia seguinte, deveria mandar duas rosas, no terceiro dia, três rosas, no quarto dia, quatro, no quinto dia, cinco e, assim por diante até o décimo segundo dia.
     - Deixa ela ficar curiosada. Não deixa ela saber que foi tu. A cada dia vai ficá sestrosa pra saber quem está mandando as frô. No décimo segundo dia, suncê se apresenta e se declara. Se fizé isso, ela vorta.
     Totalmente sem dinheiro, com dívidas, ele parou para pensar e fez o cálculo. No final, seriam 78 rosas. Ao preço que estava cada rosa, não teria dinheiro. E precisaria ainda pagar o moleque, que certamente não lhe faria o favor de graça. Foi então que desistiu de reconquistar o seu amor. Talvez o pai-de-santo tivesse razão. Ele não tinha dinheiro para amá-la tanto.

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