quarta-feira, 22 de junho de 2011

CRASE, ESSA INCOMPREENDIDA

O poeta Ferreira Gullar criou uma bela frase em 1955: a crase não foi feita para humilhar ninguém. É verdade, não foi feita para isso. Mas que humilha, humilha. Tem gente que, por não ter conhecimento da ortografia nem vontade de aprender, gostaria de acabar com a crase. Seria o mesmo que, por não saber conjugar os verbos, eliminar as conjugações e escrever tudo do jeito que quiser, como aliás grande parte da população está fazendo. Depois não entendem o que leem, não conseguem se comunicar por escrito e culpam os gramáticos de não acompanharem a evolução do linguajar do povo.
   Já presenciei grandes gafes e até erros por falta de entendimento em bilhetes e até edições de jornais com textos errados. Ninguém é perfeito, erros acontecem. Mas só o estudo da gramática e a leitura de bons textos são capazes de proporcionar uma forma correta de escrever. Além disso, é importante ter muita atenção na hora de finalizar. É provável que, neste texto, o amigo internauta encontre algum erro. Se isso acontecer, agradecerei pelo alerta.
  O poeta Mario Quintana dizia que, quando o leitor não entende o que o autor quis dizer com o que disse, um dos dois é burro. Eu me atrevo a acrescentar: ou os dois.
   Admito que reconhecer casos de crase não é tão fácil como fritar um ovo. Há quem tenha tanta dificuldade que até gostaria de ver extinto esse sinal gráfico. Foi o caso de um deputado paulista, já falecido, que chegou a propor a retirada da crase da gramática brasileira. Alegou que era um sinal já esquecido pelo povo. Foi tão criticado que acabou voltando atrás.
   Em 1988, comecei a estudar a crase. Hoje, considero-me um razoável conhecedor do tema. O problema é que há divergências entre filólogos a respeito de diversos casos. Alguns acham que a crase pode servir para evitar situações dúbias. Eu sigo aqueles que entendem que, se existe contração de artigo com preposição, há caso de crase. Caso contrário não.
   Na semana passada, uma revista nacional apresentou uma seção com o seguinte título: Bê-à-bá do economês. Acredito que o jornalista que titulou pensou em algo que vai do Bê até a Bá, mas, na verdade, Bê-á-Bá é uma expressão que deriva da soletração B A=BÁ. São, portanto, três palavras com uma única sílaba: Bê, Á e Bá. As três levam acento agudo porque são oxítonas terminadas em a.
  Para exemplificar a importância da crase no entendimento das frases, apresento um trocadilho criado há mais de 30 anos por Paulo Ricardo Stefaniak, um colega da faculdade de jornalismo da Ufrgs. Nunca mais o vi e acho que hoje deve estar desempenhando uma função ligada à área jurídica já que também cursou Direito. As frases são as seguintes:


Os autos do processo dão marcha a ré.
Os autos do processo dão marcha à ré.

Na primeira versão, sem crase, significa que o processo não está evoluindo e, pelo contrário, está indo incompreensivelmente para trás.
Na segunda versão, com crase, significa que a acusada está sendo beneficiada.
Em um próximo post, colocarei partes de um trabalho que elaborei sobre a crase após anos de estudos com base em livros e jornais. Outro detalhe que descobri é que, com o acordo ortográfico de 8 de dezembro de 1945, o sinal gráfico da crase, que era indicado por um acento agudo (á) foi substituído pelo acento grave (à). Seguirei pesquisando para descobrir em qual momento histórico foi criada a figura da crase.

Um comentário:

Dalva Maria Ferreira disse...

Última flor do Lácio... complicadinha que só! As mudanças ocorrem por força da lei do menor esforço e vão adaptando aqui e ali, às vezes aleijando uma palavrinha ou outra, mas é algo inevitável.