terça-feira, 28 de abril de 2009

UMA PAUSA NOS ASSUNTOS SÉRIOS E UMA LICENÇA PARA A FICÇÃO

Caía a tarde em Porto Alegre e eu caminhava pela Avenida Bento Gonçalves, no Bairro Partenon, quando tive a atenção despertada para uma figura estranha do outro lado de uma grade. O homem, com os olhos arregalados e cabelo desgrenhado, projetava-se dos fundos do hospital psiquiátrico em direção à frente. Ao me ver, fez sinais para que eu me aproximasse. Parei diante da grade e esperei que ele chegasse. Calculei o tamanho de seus braços para que não pudesse tocar-me e ele parou diante do gradil.
De repente, ele enfiou a mão no bolso do moletom da calça de moletom escuro. Arrependi-me de ter parado. Jornalista não consegue ignorar um fato estranho. Suei frio ao pensar que poderia tirar do bolso um revólver, uma faca ou uma pedra. Mas o que apareceu foi um calhamaço de papéis amarfalhados, que me estendeu:
_ Toma. Leva pra ler em casa. Quem sabe podes incluir no teu livro ou em um site da Internet.
Quando li o material, me espantei.

POESIA DE UM LOUCO QUE
NUNCA
PERDEU A LUCIDEZ

"
Era noite escura, o sol brilhava no horizonte, as vacas pulavam de galho em galho e os passarinhos pastavam no asfalto. Longe dali, a uns 50 metros, corria um riacho seco, em cujas águas boiava o cadáver de um homem vivo, que dizia: prefiro mil vezes morrer a falecer.
Às margens desse arroio, na sombra de uma árvore sem galhos nem folhas, um idoso de 32 anos, sentado de pé num banco de pedra feito de pau, lia um jornal sem letras e fumava um cachimbo apagado.
Na capa do jornal, escondida no meio da publicação, havia uma notícia inédita e bem conhecida: no autódromo, um cavalo de nove Veloz, correra sozinho o segundo páreo e chegara em segundo lugar.
Em outra página, no cabeçalho situado na parte inferior, uma frase destacava-se em pequeninas letras garrafais:
" Os quatro maiores profetas do novo mundo antigo são três: Pelé e Falcão."
Obrigado pela atenção.
Feliz Natal e Próspero Ano Novo

Assinado: Antônio Fortuna do Nascimento Antares

sexta-feira, 24 de abril de 2009

MAIS COISAS QUE MEUS DOIS NEURÔNIOS NÃO ENTENDEM

Tenho apenas dois neurônios: o Tico e o Teco. O Teco já está esgualepado, como diria o ex-governador Olívio Dutra. Já o outro, bem, deixa pra lá. Como os meus dois neurônios não se entendem, como os homônimos deles, os castores atrapalhados do Walt Disney, talvez seja por isso que eu não consiga compreender muitos fatos que acontecem ao meu redor. Vamos a alguns deles:
Se há limites nas estradas, por que permitem que os veículos possam atingir velocidades de até 200 ou 300 quilômetros por hora?Tá, eu sei que há países em que as rodovias permitem uma velocidade ilimitada como a Espanha. Mas eu pergunto? Por que andar a uma velocidade tão alta? Por que essa pressa toda? Seria mais lógico que apenas os automóveis usados pela polícia, bombeiros e ambulâncias pudessem desenvolver uma velocidade mais elevada. Imaginem a supremacia dos policiais sobre os bandidos que hoje roubam carros potentes para fazer suas estripulias. Você gosta de correr de carro? Vá para o autódromo.

Por que as autoridades não conseguem impedir criminosos de reincidir em roubos, furtos, assassinatos e tráficos de drogas e de outros tipos?
Qualquer imbecil se dá conta de que a maior parte dos crimes é praticada por gente que já está contaminado pelo crime. É previsível que volte a delinquir um assaltante que cumpriu pena em um presídio miserável como o Central, por exemplo, e que é posto em liberdade provisória às vezes sem nem dinheiro para o ônibus. Ele sai e vai diretamente para um lugar tão miserável como o que o segurava e se reúne com amigos que já estão envolvidos com crimes. Como acreditar que ele vá se recuperar e procurar um emprego se mesmo quem não tem antecedentes criminais tem dificuldade? Como esperar que ele vá se contentar com um salário baixo se já está acostumado a ganhar um bom dinheiro sem fazer muita força usando apenas uma arma, tão fácil para ele de conseguir. Além disso, ele é solto e abandonado. Isso sem falar na corrupção de policiais que o conhecem e passam a exigir propina para não prendê-lo. Isso sem falar nas dívidas que têm com advogados? Como pagá-los? Tudo isso me parece claro. Por que não há providências para que isso não aconteça?
Por que não há uma preocupação com o fato de que presidiários não trabalham?
O lema de qualquer governo deveria ser "nenhuma criança sem escola e nenhum presidiário sem trabalho". A lei determina que nenhum apenado pode ser obrigado a trabalhar e que o Estado deve prover o seu sustento por privá-lo da possibilidade de se auto-sustentar. Acho isso um absurdo. A lei deveria ser modificada e todo preso deveria ser obrigado a trabalhar desde que não seja de forma desumana. Todo apenado deveria custear sua permanência na prisão porque foi por seu próprio erro que ele perdeu o direito da liberdade.
Qual o mistério que mantém o uso do cigarro?
Se todo mundo sabe que o cigarro faz mal à saude, por que se vê tanta gente que se diz inteligente fumando enlouquecidamente mesmo tendo na família parentes que agonizaram com falta de ar? O que vejo são governos ganhando dinheiro com impostos da indústria do fumo e cidadãos entregando-se frenéticamente ao tabaco.

Campanha para acabar com os sacos plásticos nos supermercados
 Eu sei que os plásticos demoram muito tempo para se desintegrarem na natureza e que o uso de sacolas de pano reduziria o número deles. Mas eu pergunto: na hora de pôr o lixo no lixo, não são utilizados sacos de plástico? Ao que sei, os sacos para lixo, vendidos em supermercados, não são biodegradáveis. Não seria o caso se fazer uma campanha paralela para que os sacos de lixos tenham a propriedade de não prejudicar a natureza? Outra coisa: se passassem a usar a sacolas, pessoas sem poder aquisitivo teriam de arcar com mais despesas para comprarem os sacos. Por enquanto, a campanha auxilia um pouco o meio ambiente, mas ajuda mais os fabricantes de sacolas de pano e a venda de sacos de lixos.

Por que as autoridades alegam falta de dinheiro para cumprir obrigações do Sus?Não consigo entender como um número tão grande de trabalhadores e empresas que contribuem com descontos para a Previdência Social não gera dinheiro suficiente para custear as despesas médicas. Grande parte dos que colaboram para os cofres da Previdência não causam despesa já que, quando precisam fazer tratamentos de saúde, utilizam planos particulares. Gostaria de saber como e onde é aplicado o dinheiro arrecadado? Minha ignorância nessa área não me permite tirar conclusões precipitadas, mas será que tudo está sendo gerenciado como deveria?

quinta-feira, 23 de abril de 2009

CÉUS, AONDE VAMOS PARAR?

Os anos se passam, e as situações se repetem. Dia após dia, assaltantes roubam mais, homicidas matam mais, traficantes vendem mais drogas para viciados que roubam mais e matam mais. E isso parece natural. Não vejo nenhuma preocupação de autoridades, a não ser quando são vítimas de classe alta ou são parentes de alguma autoridade ou celebridade.
A impressão que eu tenho é que as autoridades não sabem o que está acontecendo. Em ações pífias, as polícias fazem o pouco que podem e, quando prendem, as autoridades judiciárias fazem de conta que estão fazendo justiça, já que cumprem a lei. E os presídios se enchem e despejam de volta criminosos, que voltam a assaltar, a matar, a traficar, fabricando novos criminosos.
Não consigo entender como não percebem a raiz do problema e como a sociedade não se impõe para resolver a questão. O monstro que engole e cospe de volta os criminosos está cada vez maior.
Vai chegar um dia – se é que não chegou– em que haverá mais criminosos do que honestos nas ruas. O caos já está aí, a barbárie já impera, mas todo mundo parece que está preocupado com outras coisas: ganhar dinheiro e se divertir, comprar o possível e o impossível, viajar e até, o que pior, usar drogas.
O crack e as outras drogas, até mesmo o álcool, são cada vez mais visíveis como mola impulsora do crime. A saída prematura de criminosos das cadeias é também cada vez mais notada.
Não é preciso fazer estatística para perceber que, em quase todos os casos de morte ou de assaltos e furtos há crack envolvido e existem foragidos do sistema penitenciário implicados. As cadeias não recuperam nem servem para manter criminosos longe da sociedade.
Céus, aonde vamos parar?

segunda-feira, 13 de abril de 2009

O HERÓI E A CELEBRIDADE

Outro dia comentei com colegas sobre a diferença entre herói e celebridade. Carente do primeiro, o povo se agarra no segundo como se as duas coisas fossem uma só. Mas não são. Herói, para mim, foi Jackson Jocelino Pioner, aquele policial militar de folga que acompanhava a mulher na saída do hospital e entrou no fétido Arroio Dilúvio para salvar da morte um homem que estava sendo espancado por outros marginais. Para o herói não importa quem seja a vítima.
Herói foi um menino que se arriscou em um incêndio para salvar uma criança no Centro do país ou outro que se jogou na água para resgatar um irmão no Interior do Estado. Herói é quem descobre a cura de uma doença grave. Entretanto, quem sabe os nomes desse tipo de profissional? Os heróis de hoje têm vergonha de serem reconhecidos até porque, para grande parte da população, atos de heroísmo não chamam muito a atenção. Não dão tanto ibope. Quando muito, os heróis recebem uma homenagem de algum político e depois logo são esquecidos.
Se os feitos saem na imprensa mais de três vezes, sempre existe alguém que se diz cansado dessa história. Inúmeros heróis morrem pobres e esquecidos. Já as celebridades são admiradas por grande parte da população, mesmo que nada tenham feito a não ser aparecer na televisão. Ao se tornarem celebridades, ganham dinheiro, passam a ter chances e só não aproveitam se forem totalmente desprovidas de talento. Habilidade ou conhecimento, aliás, não são qualidades exigidas para celebridades.
Elas são admiradas porque conseguem mudar de vida e ganhar dinheiro, posando para revistas ou fazendo comerciais. Neste país, até mesmo criminosos viram celebridade. Não me admira a situação se encontrar como está.
(Publicado no Diário Gaúcho na edição de 2 de abril)




Por falta de espaço, acabei não referindo outras pessoas que merecem a qualificação de herói.
Heróis são aqueles, que, mesmo sem um pai presente, vivendo sem conforto em lugares dominados pela criminalidade, conseguem lutar por uma situação melhor. São heróis por conseguirem superar as adversidades e não sucumbem para o crime. Esses, mesmo tendo muito pouco, ainda conseguem ajudar os outros e modificam suas próprias vidas.
Heroínas são as mulheres pobres que, mesmo abandonadas por seus parceiros, conseguem educar seus filhos para que sejam trigo nascendo no meio do joio. São heroínas que sofrem na carne e no espírito as agressões do meio e daqueles com quem convivem, mas seguem íntegras, transmitindo a sua ânsia de viver direito para seus descendentes.
Heroínas são as mulheres ricas que não se entregam às frivolidades que a boa situação social proporciona, que se emocionam com os necessitados e ajudam de alguma forma, seja materialmente, seja emocionalmente. Sim, essas heroínas existem. Mas, como disse no artigo, a maioria dos heróis são anônimos, não perseguem nem querem a fama, apenas sua merecida paz de espírito.
Heroínas e heróis são as professoras e professores que têm de enfrentar salário baixo e desrespeito por parte de alguns alunos que vêm de berços desguarnecidos e de pais de alunos despreocupados ou equivocados que não conhecem o sentido da palavra educar
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