quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O MUNDO NÃO TEM CONSERTO

Acrescentado de vídeo em 17/10/2011

Há poucos dias, meu colega Jocimar Farina passou-me pelo sistema bluetooth, no celular, uma música do Chico Buarque que há muito tempo eu não ouvia. Meu Guri conta a história de uma mãe conivente com seu filho ladrão. Ouvindo a música, imediatamente veio-me à mente duas cenas da realidade de Porto Alegre. A primeira foi uma ação da Brigada Militar no dia 26 de outubro em que 178 jovens participantes de gangues (agora chamados de bondes) foram detidos pouco antes de um confronto que se daria nas proximidades do shopping Praia de Belas.
Os jovens haviam se desafiado pela Internet e marcado um encontro naquele local. Se a Brigada não tivesse interferido, poderia ter ocorrido uma tragédia. Os adolescentes, com idades entre 13 e 17 anos foram levados para um batalhão para averiguação. No grupo havia meninos de 12 anos e maiores de idade, além de algumas adolescentes. Os jovens participam dos chamados bondes que costumam pichar paredes de residências e monumentos, entram em atritos com outros grupos, roubam e agridem sem qualquer motivo.
Quando li a notícia, fiquei pensando nos pais daqueles garotos. Onde andariam, o que diriam para os filhos, o que sabiam deles? Pois a segunda história a que me refiro aconteceu dois dias depois. Seis pais procuraram o comandante da Brigada Militar, coronel Paulo Roberto Mendes, para pedir uma explicação para o fato de seus filhos terem sido levados para o batalhão onde ouviram um sermão do comandante.
_ Viemos cobrar esclarecimentos, saber o que aconteceu. Meu filho não é bandido _ limitou-se a dizer um dos pais dos adolescentes. Conforme o coronel informou à imprensa, outro pai chegou a dizer que a ação policial causou uma perda irreparável à imagem do filho dele, que teria ficado "marcado na escola, onde virou motivo de piadas.
Morro e não vou ver tudo. A maioria dos 178 jovens são no mínimo de classe média. A música do Chico Buarque conta a história de uma mãe de classe baixa, mas, no fundo, é a mesma coisa.


Confira a letra da música


MEU GURI
(Chico Buarque de Holanda)

Quando, seu moço
Nasceu meu rebento
Não era o momento
Dele rebentar
Já foi nascendo
Com cara de fome
E eu não tinha nem nome
Prá lhe dar
Como fui levando
Não sei lhe explicar
Fui assim levando
Ele a me levar
E na sua meninice
Ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí! Olha aí!

Olha aí!
Ai o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega!

Chega suado
E veloz do batente
Traz sempre um presente
Prá me encabular
Tanta corrente de ouro
Seu moço!
Que haja pescoço
Prá enfiar
Me trouxe uma bolsa
Já com tudo dentro
Chave, caderneta
Terço e patuá
Um lenço e uma penca
De documentos
Prá finalmente
Eu me identificar
Olha aí!

Olha aí!
Ai o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega!

Chega no morro
Com carregamento
Pulseira, cimento
Relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar
Cá no alto
Essa onda de assaltos
Tá um horror
Eu consolo ele
Ele me consola
Boto ele no colo
Prá ele me ninar
De repente acordo
Olho pro lado
E o danado já foi trabalhar
Olha aí!

Olha aí!
Ai o meu guri, olha aí!

Olha aí!
É o meu guri e ele chega!

Chega estampado
Manchete, retrato
Com venda nos olhos
Legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente
Seu moço!
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato
Acho que tá rindo
Acho que tá lindo
De papo pro ar
Desde o começo eu não disse
Seu moço!
Ele disse que chegava lá
Olha aí! Olha aí!
Olha aí!
Ai o meu guri, olha aí
Olha aí!
E o meu guri!...(três vezes)


E o vídeo na interpretação da insuperável Beth Carvalho

2 comentários:

Gabriel Renner disse...

Sinceramente, ando simpatizando com certas acoes de repressao. Sou um cara jovem, nao passei nem de longe pela ditadura militar, mas acho que essa mordomia pra vagabundo tá demais. Acho que o falta nessa sociedade é aquele velho sentimento de medo ao se ferir o espaço alheio. Medo pela consequencia, que por fim, acaba gerando um certo respeito e, mesmo que seja um respeito difuso, nao merece a contestação por uma expressão real de bons costumes, enquanto tudo segue piorando.
Infelizmente, a ala da crimilalidade soube muito bem usufruir dessa fatia que outrora era degustada pelo regime militar, por exemplo. Acredito que, enquanto houverem intelectuais fajutos defendendo os direitos humanos a tipos de monstros sociais que de forma alguma serão penalizados, nunca vai ser enxugado esse ciclo intrerminavel q so vem crescendo de atitudes hediondas entre as pessoas.
Esse é um outro mundo, totalmente alheio a falta de distribuição de renda e não adianta ficar martelando que é culpa do brasil histórico. prova disso é essa genmte de classe média fazendo merda por aí. Tem que haver justiça, e é preciso algo dentero da lei para ser temido. Infelizmente, cadeia no Btrasil é faculdade de marginal, é a vida honesta na é muito atraente.

Dalva M. Ferreira disse...

Fantástico. É só de pequenino que se torce o pepino.