domingo, 18 de maio de 2008

AS PALAVRAS ERRADAS E A CONSAGRAÇÃO PELO USO

Se tem uma coisa que não entendo é a facilidade com que as pessoas aceitam erros. Para não passarem por puristas, acabam admitindo expressões equivocadas sob o argumento de que o uso já consagrou a nova forma. Não têm o menor respeito com o sentido das palavras ou frases.
Na verdade, se na primeira vez que escreveram a expressão "vítimas fatais" alguém tivesse criticado, esse erro não seria cometido e não se consagraria pela repetição. Daí, alguém achou bonito o termo errado e copiou. E foi também reproduzido, e se seguiu uma corrente de analfabetismo até o ponto em que o novo termo é aceito pelo argumento de que está consagrado pelo uso. Se isso não é importante, então por que criticam os erros praticados por aqueles que, por falta de estrutura social ou financeira, não conseguiram estudar e por isso falam e escrevem errado?


Acidente causou uma vítima fatal
A expressão "vítima fatal" não existe. Fatal vem do latim fatale e significa "que mata", "que causa morte" e não que morre. Ao dizerem ou escreverem que há mortos em acidentes, não conseguem uma outra maneira para expressar essa idéia e, por isso, referem-se a vítimas fatais. Uma rápida consulta ao google já mostra a repetição da expressão.


O jogador sentiu a coxa.
Ora, se ele sentiu a perna, é sinal que tem sensibilidade nessa parte dos membros inferiores. Não se entenderia por que haveria algum problema. Teria de ficar fora do jogo se não sentisse a perna, se ela estivesse totalmente adormecida. O certo foi o que o repórter Bruno Laurence falou a seguir, ao apresentar a matéria: "O jogador sentiu dor na parte posterior da coxa esquerda." Ele poderia ter sentido uma fisgada, um problema. Além disso, dizer que sentiu a perna dá idéia de que tem uma perna só.

Furto e roubo não são a mesma coisa

Para a maioria das pessoas, furto e roubo (ou assalto) significam a mesma coisa. Mas são diferentes. Furto é quando o ladrão tira algo da vítima sem que ela perceba. Por exemplo: quem entra em uma casa na ausência do dono e leva algum objeto ou dinheiro, realizou um furto. O ato de quebrar uma janela, uma porta ou um telhado para entrar é arrombamento. Arrombamento pode ser sinônimo de furto, mas nem sempre furto é sinônimo de arrombamento. Outro exemplo é o furto de carteira (a punga), de bolsa (chuca). O crime está relacionado no artigo 155 do Código Penal. A pena é de um a quatro anos de prisão mais multa para o furto simples.
Roubo é quando o crime acontece na presença da vítima, com arma ou não. Assalto é a mesma coisa. Esse crime está tipificado no Código Penal no Artigo 157, com pena de quatro a dez anos de prisão, se não houver agravantes.
Mas atenção! Não vamos ser tão radicais. Quando a frase está na boca do personagem, não é necessária essa diferença. O mesmo ocorre no sentido figurado como "o juiz roubou" ou ela "roubou meu coração" ou "senti-me roubado ao ver o preço do tomate".
Todos são unânimes
3) Todos são unânimes em afirmar que o réu é inocente. O réu pode ser inocente, mas esse que escreveu a frase é culpado de ter cometido um pleonasmo bem chato. Se há unanimidade, é claro que são todos. Na verdade, talvez a palavra tenha sido empregada no sentido errado de "categóricos".

Um dos que
5) O artista era um dos que estava participando do festival. O autor dessa frase é um dos que costumam errar na concordância. A confusão deve ter sido feita porque existe a frase "um dos artistas era meu amigo." Sempre que há "um dos que", o que se segue deve ser plural.

O centroavante nem concentrou.
Alexandre Pato, que concentrou as atenções dos torcedores, concentrou-se com os demais titulares. O verbo concentrar no sentido de reunir alguma coisa ao redor de si é transitivo direto, isto é, necessita de complemento, no caso o objeto direto. Já concentrar-se é verbo pronominal e significa ficar concentrado ou manter-se na concentração.

Encarar de frente
Nunca soube de alguém que encarasse algum problema de costas até porque aí não seria encarar; seria talvez "enucar". Talvez a frase correta fosse "encarar o problema com seriedade, com responsabilidade, com espírito de luta.

Elo de ligação
A palavra elo já significa ligação, elo é a argola que faz parte de uma corrente. "A prisão de Fulano era o elo que faltava para a ligação entre as duas quadrilhas", mas não "o elo de ligação" das quadrilhas.

De mala e cuia
Outro dia estava vendo um noticiário em televisão do centro do País e o repórter lascou esta:
Fulano se mudou de mala e cuia para a Europa.
Essa expressão começou a ser usada quando repórteres e artistas gaúchos se mudaram para São Paulo e Rio na década de 80. Como custumavam tomar chimarrão, fazia sentido dizer que haviam se mudado de mala e cuia, que significava, fixar residência, mudar para morar no outro lugar. Daí um paulista ou carioca se mudar de mala e cuia para a Europa? Seria o mesmo que dizer que o gaúcho saiu de Porto Alegre via pau-de-arara.




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