sexta-feira, 4 de abril de 2008

UMA HOMENAGEM A UMA MULHER INESQUECÍVEL

Ela era uma pessoa muito engraçada. Sempre que vejo alguém rindo à bandeira despregada, eu me lembro dela. Ria por qualquer coisa e gostava de contar causos hilários e de dizer chistes herdados de seus antigos familiares. Lembrava sempre _ com um ar de quem constatava uma formidável coincidência _ que havia nascido em 4 de 4 de 24 (4 de abril de 1924), e o seu marido em 22 de 2 de 22 (22 de fevereiro de 1922).
De vez em quando, porém, guardava uma certa melancolia num cantinho do peito, resultado de muito sofrimento na vida. Ficou orfã aos quatro anos de idade. A sua mãe, esperando um segundo filho, grávida de quase nove meses, morreu depois de ter ido buscar água na cacimba. Com o esforço, ela sentiu-se mal, e o bebê acabou morrendo e não foi retirado com urgência. Sem recursos no interior de Bagé, ela também acabou falecendo. Poucos anos depois, o pai dela casou-se de novo. A madrasta, conforme relatos, era uma legítima megera, como aquelas de estórias de contos de fadas.
Não demorou muito e ela, com cerca de seis anos, foi para o internato numa escola de freiras. Como era canhota, sofreu muito quando começou a aprender a escrever. Na época, era muito feio ser canhoto e, por isso, amarravam a mão esquerda dela para que aprendesse a escrever com a direita. Ao sair do internato, já aos 17 anos, enfrentou a oposição de seu pai, que no início não concordava com o namorado que ela arrumara. Mas o rapaz insistiu e conseguiu a mão dela. Depois de ter sido neta de um dos fazendeiros mais ricos de Seival, ela enfrentou dificuldades financeiras. Criou seis filhos. Ela e o marido chegaram a fazer doces para vender. Rapadurinhas de leite, bolo de laranja, quindim.
Apesar de tudo, nunca perdeu o bom humor. Seis anos após ter completado 50 anos de casada, ela morreu devido a um câncer. Horas antes de morrer, ainda mantinha a presença de espírito fazendo piadas consigo mesma. Ela se foi, mas ficou viva num canto do meu coração. Tenho muito orgulho e muita saudade de minha mãe, Ítala Pereira Nunes. Hoje, ela estaria completando 84 anos. Mas, com certeza, lá no céu, muitos continuam rindo contagiados pela sua alegria e inquebrantável bom humor.

4 comentários:

Mauro Castro disse...

Meu amigo Plínio
Passando só pra dizer que o verdadeiro final da história, lá no Taxitramas, é o terceiro. Infelizmente.
Há braços!!

Anônimo disse...

Foi num dia, há muito tempo atrás, em que qualquer frase dita muito alta insultava as paredes e o concreto te levava pra longe. Quando voltavam, sussurravam segredos de liquidificador, ansiavam pela paz com medo, intimidado por aqueles que deveriam nos proteger. Outros iam-se pra longe, deixando a pátria amada e buscando paz em solo estrangeiro. E o bêbado, pobre bêbado, das calçadas imundas ganhou apenas alguns vinténs do palito surrado e um sorriso singelo escondido no canto de uma boca que nunca precisou gritar para ser ouvida. Se ninguém ganhou como premio a culpa, nós, que vivíamos tentando dizer algo, ganhamos o silencio como resposta. O eco de nossas vozes era o único que ainda nos acompanhava. Mais pensa que desistimos? O brilho, mesmo que alugado, nos acompanhava, nos iluminava em novos pensamentos, em novas musicas! Cada estrela sabia um segredo, e juntos todos cantamos pela liberdade! Marchávamos contra aqueles que queriam nos calar, fomos açoitados, torturados. Mesmo assim nunca perdemos nosso amor à pátria. Sonhávamos com a volta dos que haviam falado mais alto. Fazíamos muito barulho. Chorávamos pelas mães-marias e clarices-esposas do brasil, chorávamos pelos amigos que já haviam ido, pelos que ainda estavam aqui. Lutávamos por nós mesmo, e por aqueles que ainda viriam. Pedimos todos os dias para que a paz enfim reinasse, e para que algum dia as nossas palavras fossem ouvidas. Desejávamos do fundo de nossas almas calejadas, que Ela viesse. Sabíamos todos que aquela dor pungente não seria inútil. A esperança dançava na corda bamba com a sombrinha na mão, e a cada passo ela sabia (ela sempre soube) que poderia se machucar. Mesmo assim nunca desistiu, porque sabia que o show tinha que continuar.



O comentário é sobre um texto antigo, você sabe qual. Quem sabe um dia possamos trocar opiniões.

Meus cumprimentos, Anônimo.

Plinio Nunes disse...

Legal o texto. É sobre o texto da música O Bêbado e a Equilibrista. Vamos conversar sim, só que não sei quem és.
Abrs.

Anônimo disse...

Sou um andarilho, passeio por ai em buscas de idéias e motivações.