quinta-feira, 1 de maio de 2008

DIA INTERNACIONAL DO TRABALHO

Neste primeiro de maio, em vez de sinalizar o Dia do Trabalho, prefiro ressaltar a existência daquele que move o mundo com sua dedicação. Não me refiro aos que ganham muito dinheiro com o trabalho, embora isso não seja passível de crítica. O que é lamentável é a exploração desonesta do esforço alheio. Lamento a existência de uns poucos com muito e a quase totalidade com quase nada. Enfim, é difícil mudar. O homem é o explorador do próprio homem.

Deixando de lado essas considerações, vamos à homenagem. É um texto conhecido, do filósofo Brecht, mas há certamente muita gente que ainda não teve acesso a ele.



Quem construiu a Tebas das Sete Portas?
nos livros constam os nomes dos reis.
Os reis arrastavam os blocos de pedra?
E a Babilônia tantas vezes construída
quem a ergueu outras tantas?
Em que casa de Lima radiante de ouro
moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros
na noite em que ficou pronta a Muralha da China?
A grande Roma está cheia de arcos de triunfo.
Quem os levantou?
Sobre que triunfaram os césares?
A decantada Bizâncio só tinha palácios para seus
habitantes?
Mesmo a legendária Atlântida
na noite em que o mar a engoliu, os que se afogavam
gritavam pelos seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os gauleses
Não tinha pelo menos um cozinheiro consigo?
Felipe de Espanha chorou quando sua armada naufragou.
Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu, além dele?
Uma vitória em cada página.
Quem cozinhava os banquetes da vitória.
Um grande homem a cada dez anos.
Quem pagava suas despesas?
Tantos relatos.
Tantas perguntas.




Sobre o autor:

Bertolt Brecht nasceu nasceu na Alemanha, em Augsburg, em 1898. Pouco depois de começar um curso de medicina, em 1917, foi chamado para o exército para trabalhar como enfermeiro em um hospital militar.
Brecht começou a escrever seus primeiros poemas e cedo se rebelou contra o que considerava como "falsos padrões" da arte e da vida burguesa, corroídas pela Primeira Guerra.
Esse tipo de pensamento aflora na primeira peça, um drama expressionista chamado Baal, criado em 1918. Brecht passou a colaborar então com os diretores Max Reinhardt e Erwin Piscator.
Já no final dos anos 20, o escritor recebeu instruções marxistas do filósifo Karl Korsch.
Em 1928, faz com Kurt Weill a "Ópera dos Três Vinténs". Com a ascensão de Hitler, deixa o país em 1933, e se exila em países como a Dinamarca e Estados Unidos, onde sobrevive à custa de trabalhos para Hollywood.
Brech faz da crítica ao nazismo e à guerra tema de obras como "Mãe coragem e seus filhos" (1939). Vítima da patrulha macartista, parte em 1947 para a Suíça - onde redige o "Pequeno Organon", suma de sua teoria teatral. Volta à Alemanha em 1948, onde funda, no ano seguinte, a companhia Berliner Ensemble. Morreu em Berlim, em 1956.





Um comentário:

Anônimo disse...

Tantos relatos.
Tantas perguntas.
Tantos homens..

Já dizia meu velho amigo, Drummond de Andrade:
"Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos-voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam)."

Por isso vago por ai, por isso gosto tanto de me contar, por isso me dispo, por isso me grito, por isso frequento os jornais, me exponho, cruamente nas livrarias:preciso de todos.


Virá o dia em que aprenderei a lingua dos homens (com amor, é claro), e me apresentarei formalmente.
Por enquanto te peço, apenas, companhia.


Até..