quarta-feira, 21 de novembro de 2007

HOMENAGEM NO DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Neste 20 de novembro, quero fazer aqui uma homenagem a um povo com um passado sofrido e que, ainda hoje, é vítima de preconceitos. Não considero que existam raças diferentes na face da Terra. Somos todos da raça humana. Existem grupos de pessoas com características diferentes. Por isso, não entendo nem aceito a discriminação contra nenhum povo, contra nenhum indivíduo. Não concordo com qualquer tese de superioridade de um povo sobre outro nem que diferenças de pele sejam parâmetro para segregar pessoas.
Por isso, neste 20 de setembro, consagrado pelo nascimento do lutador Zumbi, quero render um tributo a todos os negros. Para isso, parabenizo quem tenho mais proximidade, quatro colegas de trabalho, que primam pela tenacidade, pela alegria, pela luta e pelo grande caráter. São eles:

Luiz Armando Vaz, repórter fotográfico e comentarista de carnaval em programa de TV
Renato Dornelles, repórter, editor, colunista de Carnaval em jornal, apresentador de programa de rádio sobre Carnaval e pesquisador
Rosângela Carvalho, telefonista
João Roberto Assunção, repórter de Variedades

É preciso lembrar sempre sobre o grande crime cometido contra os negros e lutar para que o preconceito, de qualquer tipo, jamais persista, para que as gerações futuras não tenham os mesmos motivos para envergonhar do que foi feito no passado. Para isso, gostaria de reproduzir aqui uma poesia do meu conterrâneo Dimas Costa sobre a escravidão. (Não consegui achar o texto a tempo, então vou digitar de memória. Por isso, perdoem eventuais erros, que serão corrigidos, caso existirem, assim que puder encontrar o livro).

Os Olhos do Negrinho


Nos tempos que já vão longe
por culpa do Grão-Senhor,
o mundo era um carneador
assim na comparação.
Coberto de sangue rubro
vestido do corpo vivo
do negro, pobre cativo
nas garras da escravidão.

Vinham barcos de além-mar
galopeando pelas águas
trazendo dores e mágoas
no seu bojo infecto e imundo.
E despejavam nos campos
dos potreiros do Brasil
que se fez também covil
do maior crime do mundo.

Nosso pampa, por desgraça
foi cúmplice desse crime.
Hoje, no então, se redime
da culpa dessa maldade,
abrindo a todas as raças
todas as porteiras do pago
que cultiva, com afago,
a mais pura liberdade.

Mas foi nesse triste tempo
que nasceu o Benedito.
Um pobre escravo, um negrito,
que morreu ainda na infância.
Nasceu não, veio ao mundo
como um traste sem valor.
Foi crescendo e ficou sendo
o mandalete da estância.
O pobre do Benedito era
pau pra toda obra.
Mais ruim que carne de cobra
era para ele o senhor.
– Benedito, busca água
– Benedito espanta o gado.
– Benedito, desgraçado,
negro ordinário, estupor.
E logo o relho cantava,
e o Benedito gemia.
Apanhava e não sabia
por que razão, o coitado.
E ficava ali, parado,
fitando o senhor, sestroso,
os olhos grandes, tremendo,
meio choroso, calado.
– Benedito, fecha os olhos.
Não me olhes desse jeito.
O temor e o respeito
deixavam o senhor aflito.
Pois no fundo desse olhar
havia um triste segredo
e o senhor já tinha medo
dos olhos do Benedito.

Benedito, fecha os olhos
fecha os olhos, Benedito!

E à noite, quando o negrinho
depois que a lida findava
corpo moído se deitava
no chão duro da senzala.
A lua vinha de manso
furar a palha do teto
e o menino, com afeto,
ficava rindo a fitá-la.
E abria ainda mais os olhos
como a beber o luar
que nunca o ouvir reclamar
por ele o mirar assim.
E feliz por um momento
o menino tão pequeno
fechava os olhos, sereno,
e adormecia por fim.

– Benedito fecha os olhos
desvia, negro, esse olhar.
Pois hoje tu vais fechar
para sempre, o desgraçado.
E o monstro humano bateu
no menino sem cessar
até o pobre tombar
aos seus pés ensangüentado.
E o olhar do Benedito
mais e mais se escancarava
e louco, o senhor gritava:
Fecha os olhos Benedito.
E o relho vinha de novo
lanhar o corpo flaquito.
Benedito fecha os olhos,
fecha os olhos, Benedito.

Até que um breve silêncio
susteve o braço assassino
pois a alma do menino
escravo da negra sorte
fugiu por fim já cansada
de tanto o corpo apanhar
e feliz, foi se entregar
aos braços livres da morte.

E o olhar do Benedito nem
assim não se fechou.
Morto embora ali ficou
mais e mais escancarado.
E o senhor ao ver aquilo
perdeu a luz da consciência
e se arrojou na demência
a gritar desesperado:
– Benedito fecha os olhos,
fecha os olhos, Benedito!

E o olhar do Benedito
ficou grudado no céu.
Uma noite, por entre o véu
da grandeza do infinito,
um par de estrelas surgiu
a brilhar fitando o mundo.
Tinha um mirar tão profundo
como os olhos do negrito.
E hoje que ainda existe
na consciência universal
a eterna nódoa do mal
daquele crime maldito,
quanto homem ainda há
que, ao ver o par de estrelas brilhar,
não tem ganas de gritar:
– Fecha os olhos, Benedito!

2 comentários:

Mônica disse...

bonita e merecida homenagem. finalmente achei teu novo blog. abraços.

vidacuriosa disse...

Renato Dornelles terminou o ano em grande estilo. Ganhou o Prêmio Ari de Jornalismo com a reportagem A História da Falange Gaúcha,uma série publicada no Diário Gaúcho.