segunda-feira, 29 de outubro de 2007

UMA HISTÓRIA COMPLICADA

Na cama do hospital, amarrado, ele ainda não havia entendido o que acontecera. O torpor de um poderoso calmante confundia-lhe as idéias. Horas antes, passara pelo período de maior adrenalina em toda a sua vida.
De repente, da calmaria na poltrona do ônibus, passou a viver emoções fortíssimas. Na janela, teve sua atenção despertada para um barulho muito forte na parte de baixo do veículo, seguido de um balanço esquisito, como se o carro fosse de um lado para o outro na pista.
   Os passageiros ficaram alarmados. Ele procurou as portas de emergência e aguardou, pressentindo o pior. Próximo a uma ponte, o ônibus se desgovernou, desceu uma ribanceira e seguiu paralelamente à rodovia e precipitou-se no rio.
Ágil, ele abriu a portinhola de emergência e subiu no teto, enquanto o ônibus afundava. As horas que passara na sanga, na longínqua infância na Campanha, lhe valeram agora. Ele se jogou na água e nadou rapidamente para a margem.
Na superfície das águas, nada restava do ônibus. Parou os primeiros carros que passaram, contou o que acontecera e pediu para que ligassem para a Polícia Rodoviária, enquanto tratava de salvar alguém. Na ânsia de liderar os salvamentos, pediu aos curiosos que tirassem os cintos e os cadarços dos sapatos para improvisar uma corda, caso fosse necessário puxar os feridos ou os corpos.
   Quando os patrulheiros e as ambulâncias chegaram, logo estranharam. Não havia qualquer sinal do ônibus no rio. Nem marcas havia no local onde o homem dissera que o veículo despencara.
   O que estava acontecendo? Molhado da cabeça aos pés, o homem insistia que estava falando a verdade. Tentou se jogar na água, alegando que cada minuto era importante para salvar a vida dos ocupantes do ônibus. Um dos policiais ligou então para a empresa de ônibus citada pelo homem. O veículo, que saíra de Bagé para a Capital já havia chegado sem problemas à rodoviária de Porto Alegre. Contatado, o motorista lembrou de um passageiro exaltado e com sintomas de síndrome de pânico. Ele havia exigido que o carro parasse e desceu justamente nas proximidades da ponte. Depois de aguardar alguns minutos, o homem fizera sinal para o motorista seguir viagem.
Levado a uma delegacia de polícia, o homem teve uma crise de choro e insistiu que precisava salvar os ocupantes do ônibus que caiu no rio. Após um desmaio, ele foi levado para um hospital.
   Numa cama de hospital, amarrado, ele ainda não havia entendido o que acontecera...
 

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