quarta-feira, 17 de outubro de 2007

O ALAMBRADOR VIOLINISTA

Quando eu era pequeno, em Bagé, quase não dormia direito na véspera do dia 1º de abril. Para nós, lá em casa, não era o Dia da Mentira, mas o Dia dos Bobos. Eu acordava cedo (quando não me acordavam) e passava o dia aplicando trotes nos familiares e amigos. Ao mesmo tempo, tentava me cuidar para não ser vítima.
Eu lembro bem. Para uns, principalmente os meus irmãos, eu dizia que a mãe estava chamando. Quando o irmão voltava, depois de ouvir a mãe dizer que ele estava ficando louco, que não havia chamado nada, eu cantava: "Primeiro de abril, primeiro de abril".
Não foram poucas vezes também que caminhei no sol para ir até onde estava o meu pai, depois de receber recados falsos dos irmãos ou de amigos. Logo que caía na esparrela, já pensava na maneira de me vingar em alguém.
Passada a infância, o Dia 1º de Abril deixou de ser o Dia dos Bobos, mas o Dia da Mentira. Abomino a mentira maldosa, com más intenções, mas adoro a mentira criativa, que é chamada também de ficção. Abaixo, um texto que criei pensando em participar do Festival de Nova Bréscia e nunca tive coragem de me inscrever.


O ALAMBRADOR E O CONCERTO CAMPESTRE


Nas bandas do Seival, num tempo em que ainda era 3º Distrito de Bagé, vivia um alambrador pra lá de competente. Encarregado de manter firmes os arames da propriedade do meu pai, na costa do Rio Jaguarão Grande, o rapaz era o melhor alambrador daquela região. Pensando bem, era o melhor alambrador de Bagé. E, se era o melhor de Bagé, certamente era o melhor alambrador do Rio Grande do Sul. Por conseqüência, do Brasil. Quiçá do mundo.
Os arames que ele estendia eram bem esticados. Para isso, tinha uma máquina que repuxava os fios por dentro dos moirões e tramas caprichosamente perfurados por uma pua. Aramado que esse alambrador tocava não arrebentava nem com touro bravo nem com queda de galho de eucalipto.
Pois foi então que, um dia, meu pai trouxe o alambrador a Porto Alegre. Ele tinha de examinar um material que seria comprado para uma nova cerca. Além disso, meu pai quis satisfazer um desejo dele de conhecer a Capital. Levei-o então para o Theatro São Pedro, para a Casa de Cultura Mario Quintana, para o Teatro de Câmara e onde quer que a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre se apresentasse. O alambrador ouvia embasbacado as apresentaçõs musicais. E, no final, se esquecia no palco ou nas coxias, conversando com os músicos, especialmente os violinistas.
Ele gostou tanto de ouvir música clássica que nos pediu para ficar mais uma semana na Capital. E dá-lhe shows, apresentações da Ospa e, por último, audições nos velhos discos da Discoteca Natho Henn, na Casa de Cultura.
Quinze dias depois, voltou à campanha para trabalhar nas terras onde aconteceu, em 10 de setembro, o Combate de Seival. Dois anos após, retornei a Bagé e fui visitar a fazenda. Ao subir uma coxilha a cavalo, ouvi de repente, na solidão e no silêncio do pampa, um som de música clássica. Achei que estava sonhando ou era miragem.
Quando subi ao topo da colina e olhei para a canhada, não acreditei na paisagem que se descortinava. A música vinha de um aramado no canto, ao lado de uma sanga. Com um arco feito a mão com madeira de pitangueira e fio de crina de cavalo, o alambrador tirava acordes magníficos nas quatro cordas afinadíssimas do alambrado.
Ao me ver, ele abriu um largo sorriso e tocou uma música inteira de Paganini. Mais tarde, contou-me que, nas tardes em que o Minuano sopra com força na região, vindo da Argentina para se dirigir ao Uruguai, o violino campestre produz sons lindíssimos. Como não gravei nem a cena nem a música e sequer fotografei o local, certamente alguém irá pensar que é mentira.

2 comentários:

Anônimo disse...

sempre gostei dos teus textos. ess lembrou de alguns que meu pai contava das bandas do Rio Pardo, uns mentiras, outros nem tanto. te ler é um privilégio, sendo ou não mentira....um beijo da Glaci Borges

vidacuriosa disse...

Valeu Glaci. Obrigado pelo comentário. Beijos